O avesso do bordado

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Andrea Silveira @andreafsilveira

A agulha espetada na blusa espera, pacientemente, a escolha das linhas e do tecido. Ela conhece sua tarefa decor e salteado. Pontinho para lá, talvez uma laçada no meio, outro pontinho para cá e pronto: um cenário surge no pano, uma bainha é concluída, um cerzido recupera a roupa surrada e assim vai fazendo mágica pelas mãos da bordadeira.

O trabalho é exaustivo e demanda muita coordenação motora, visual e até mesmo emocional. Por exemplo, quanto mais sofisticado um bordado, maior concentração tem que ser dedicada e também um bom planejamento. É necessário traçar algumas linhas para delinear o caminho a ser percorrido pela agulha. Igualmente fundamental é garantir certa luminosidade no ambiente para se enxergar melhor a trama do tecido e dispor ainda de uma dose generosa e paciência, sobretudo quando se trata de rococó.

A delicadeza do tecido pode dificultar um pouco a produção. Quanto mais fino, mais sutil tem que ser o movimento. Não adianta correr e enfiar a agulha de qualquer jeito. Cada etapa do bordado é para ser vivida de maneira especial e atenta aos detalhes. Muita pressa é trabalho perdido porque a bordadeira terá que desmanchar tudo e recomeçar.

Nem sempre, entretanto, é possível recuperar o bordado. Se os pontos estavam muito apertados e enrijecidos, o pano acaba ficando marcado para sempre. Não tem como criar um novo traço, ignorando o erro cometido. Neste caso, é mais recomendável trocar o tecido e começar o bordado do zero. Ou então, improvisar e mudar o panejamento do desenho. Mas isto exige algumas habilidades por parte da bordadeira.

Desprendimento é uma delas. Quanto menos apego ao croqui original do bordado, mais flexibilidade para esboçar novos traços. Assim, as adaptações vão ficando cada vez mais fáceis. Claro, o resultado será outro, mas a criatividade terá rendido boa distração.

Curiosidade é outro requisito em casos dessa natureza. Sempre que olha para fora do seu bastidor, a bordadeira consegue experimentar outros estilos e técnicas. Melhor ainda, se não restringir sua estampa ao esquadro inicial, poderá dispensar a chapa e o carbono para picotar sua imaginação no tecido, sem nenhuma censura. Nada de copiar e colar e, sim, de liberar-se totalmente para seguir sua intuição.

Apesar da possível ousadia da bordadeira, a agulha segue desempenhando sua função, assim como as linhas e o tecido. Tem coisas que nasceram para ser como são, pois assim o sendo, nos permitem fazer o que é coerente para nós. Isto é ser livre de fato: ser o que somos e agirmos como tal.

Por outro lado, é importante termos clareza sobre a nossa essência. Afinal, como poderíamos reivindicar alguma coisa se não a reconhecemos?!

Em relevo ou plano, apertado ou solto, cheio de pontos sofisticados ou apenas algumas simples cruzinhas, são características que podem ir se modificando ao longo do projeto. Porém, o avesso do bordado revela tudo sobre a bordadeira. Às vezes, frente e verso são tão iguais que confundimos os dois. Em outras, a linda estampa da frente apenas esconde um emaranhado de linhas por trás do pano.

Penso que a vida das gentes é semelhante a um bordado. Não precisamos nos ater a um plano perfeito, mas é imprescindível que o nosso avesso não seja um reverso confuso.

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2 respostas para O avesso do bordado

  1. Ana Maria Tavares disse:

    Perfeito… a vida é um grande bordado.

  2. Lourdes disse:

    Perfeita a conclusão…

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