Sobre o direito de contar a própria história

Foto: Edward Echwalu, do perfil do Every Day Africa

Foto: Edward Echwalu, do perfil do Every Day Africa

Recentemente, temos nos deparado com inúmeras histórias sobre diferentes fatos da vida diária que, por força cultural ou imposição social, não tínhamos o hábito de contar. Perpetuando o silêncio dos inocentes, das vítimas de violência e daqueles que muitas vezes sofrem agressões e insultos morais, consagramos um modo de viver em sociedade que inverte completamente os papéis: o agressor, independente do que tenha feito, permanece impune, protegido e salvaguardado.

Enquanto isso, voltamos nossos olhares para as vítimas, acusando-as de estarem no lugar errado e na hora incerta, fazendo o improvável, como se estivessem chamando para si o infortúnio merecido. Julgamos e condenamos, não o algoz, mas a sua presa. Acobertamos comportamentos imorais, em nome de uma moral social que se baseia na hierarquia de poder dos brancos sobre as outras cores de pele, dos ricos sobre os pobres, dos homens sobre as mulheres, dos adultos sobre as crianças, dos doutores sobre os operários, dos heterossexuais sobre os homo-bi-trans e assim por diante.

Além do insulto, da surra, do estupro, a vítima ainda sofre mais uma violência: a censura. Vê o direito de falar sobre sua história cerceado, constrangido, totalmente desqualificado. Estratégia bem elaborada para garantir o bom funcionamento do cotidiano e incutir na pessoa a dúvida, o sentimento de culpa e inadequação pela experiência vivida. Até quando vamos sustentar esta prática?

Basta! Violência, em todas as suas formas, é para ser denunciada, assim como a corrupção e outras tantas transgressões contra a igualdade de direitos e a defesa do bem estar pleno dos seres que vivem nesse planeta.

Ocultar, omitir, desviar o assunto e manipular fatos não podem fazer parte do nosso código cultural. Temos que nos sentir livres para vir a público com as nossas experiências e co-responsabilizar a sociedade por aquilo que devemos mudar. Somos todos protagonistas das histórias que vivemos e igualmente comprometidos com o desenrolar das mesmas.

Não precisamos de autorização para falar sobre o que vivemos. Se deixamos de delatar a injustiça e a imoralidade por medo, constrangimento ou pela descrença de que possamos alterar esse cenário, estamos apenas alimentando esse ciclo perverso que liquida nossas chances de construir um mundo fraterno.

Mas, sim, é preciso coragem para revelar nosso próprio sofrimento e nessa arena o combate é interno. Portanto, parabéns àquel@s que superam esse desafio e vencem a correnteza, se fazendo de porta-voz para tant@s outr@s que ainda permanecem nos bastidores.

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2 respostas para Sobre o direito de contar a própria história

  1. marco aurélio de oliveira disse:

    Pois é, até na maneira de ser estamos sendo julgados, ex. uma mulher que usa um vestido curto ou uma blusa decotada, já é rotulada de provocativa como tivesse objetivando um ataque de algum desiquilibrado, ora ela não quer ser molestada, apenas quer ficar bonita para si mesma ou para alguém especifico. Quando chegar o momento em que os olhares serão apenas de admiração, que os pré-conceitos e julgamentos não façam mais parte do nosso cotidiano, e o ser humano respeite seu próximo, não por medo de ser penalizado, mas sim pela consciência que todos nós temos os mesmos direitos.

  2. Texto importante e inspirador e acredito que mais do que nunca é tempo de se dar voz a qualquer pessoa. O PLAYBACK THATRE tem se mostrado uma eficiente forma de oportunizar, no mundo inteiro, voz aos excluídos. Convido a todos que quando tiverem uma oportunidade de participar de uma apresentação não o deixem de fazer. É uma forma linda e espontânea de promover a inclusão e um senso de humanidade. Parabéns Andrea, por tocar nesta ferida. Forte abraço!

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