Natal sem razão

Os sábios e despojados pregam a máxima de que é melhor ser feliz do que ter razão. Motivos não faltam. Cada um de nós poderia listar, pelo menos, uma dezena deles. Portanto, reconheçamos: adotando-se tal paradigma, a convivência em grupo pode ser mais tranquila, pacífica e prazerosa, pois dispensa discussões acaloradas.

Ninguém precisa provar nada para ninguém. Nem para si mesmo. A verdade deixa de ser absoluta e passamos a viver a relatividade de tudo. Ganhamos em aceitação, compreensão e tolerância. Nosso talento para ouvir o outro aumenta e a necessidade de contrapor suas ideias diminui. Mesmo sendo divergente do nosso pensamento, a relação permanece inabalada. Afinal, desenvolvemos o potencial para nos colocarmos no lugar daquela pessoa, entendendo seus princípios, sem destacá-los do contexto.

Excelente oportunidade para vermos as coisas numa outra perspectiva, evitando o julgamento. Ótimo para ampliarmos a flexibilidade e exercermos a escuta ativa. Principalmente, assumir essa postura dispensa a obrigação de estarmos certos e de sermos inteligentes o tempo inteiro. Podemos nos abrir para as “razões” alheias e aprender com elas. E, de quebra, nos beneficiamos com alguma solução ou visão diferente, algo que nunca havíamos experimentado antes, por estarmos comprometidos demais com a “originalidade” e a certeza das nossas concepções.

Quanto mais nos acostumamos com as próprias verdades ou com a habilidade de criá-las, menos acolhemos as de outrem. Pior: com frequência, nós as consideramos uma ameaça à nossa integridade. Como ousam pensar ou sugerir algo diferente? Que disparate!

O que seria da borboleta se apenas a lagarta tivesse razão?

O que seria da borboleta se apenas a lagarta tivesse razão?

Nesses casos, a defesa se torna o melhor ataque. Naturalmente, inauguramos o círculo “virtuoso” da réplica-tréplica. Engatilhamos todas as armas disponíveis e partimos para a guerra. E que vença o melhor! Quer dizer, no final, alguém tem que ceder. De preferência, que seja o outro! Pois, quando somos nós, nem sempre suportamos.

Há pessoas que temem perder a razão. Diante da mínima possibilidade de “derrota”, elas convocam o melhor soldado do batalhão para arquitetar a vitória dos seus pressupostos: o ego. Um “serzinho” de apenas três letras, mas com tamanho poder de persuasão sobre nós. Tanta força assim, certamente é porque possui patente de general. Não vamos discutir.

A equação parece simples: a necessidade de controle sobre tudo é inversamente proporcional à nossa capacidade para abrir mão da disputa pela razão. E, observem, desfrutar ou não da razão talvez seja dispensável. O fundamental para essas pessoas é vencerem a batalha para serem felizes. Mas a promessa de felicidade, para elas, raramente se cumpre. O que ocorre é apenas um misto de satisfação intelectual e egoica.

Podemos estar cobertos de sabedoria e certezas, mas isso não significa que precisemos agitar a bandeira da razão por onde passarmos. Há fortes probabilidades de nos tornarmos pessoas de difícil convivência. E por acaso alguém gosta de conviver com donos da verdade? Ou com pessoas prepotentes, que nunca perdem a oportunidade para declarar que você está errado sobre determinada coisa?

Contra os que acreditam possuir a razão, não há argumentos. Se estiverem certos, ótimo. Seria um despropósito insistirmos em outra direção. Porém, se estiverem errados, qualquer tentativa de convencê-los continua descabida. Então, ao invés de consumirmos nosso precioso tempo para descobrir de que lado pende a verdade, recomenda-se aproveitá-lo para nos deliciarmos com a felicidade. Pois esta, sim, merece nossa atenção.

Já dizia o mais sábio de todos os sábios: “Dai, pois, a César o que é de César!” E mesmo com todas as verdades universais que pregava, houve quem contrariasse sua razão. Por isso, que tentemos abandonar nossas razões em nome da felicidade. O universo é grande o suficiente para acolher as mais absurdas certezas.

Enfim, um Natal sem razão para todos vocês! E que 2014 floresça repleto de felicidade!

Anúncios
Esse post foi publicado em Crônicas, contos e poemas, Meditando e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Natal sem razão

  1. Luiz Tannous disse:

    Minha querida amiga….Paz, Luz e muito discernimento para traçar e seguir nossos caminhos.
    Muito obrigado por todo apoio , principalmente ao longo deste ano.Seja muito feliz! Sempre e sempre!Beijo grande meu e da Syl. Feliz Natal e um lindo 2014 com tudo que for de direito!

  2. Severino Vasconcelos disse:

    Dra. Andréa. Boas…
    As boas do Natal, entre elas, a fé, diferente da música “Alagados” que diz: “A arte de viver da fé, só não se sabe fé em que…” Então, esta é uma excelente oportunidade “…para vermos as coisas numa outra perspectiva, evitando o julgamento.” Você disse bem: “Contra os que acreditam possuir a razão, não há argumentos. Se estiverem certos, ótimo. Seria um despropósito insistirmos em outra direção. Porém, se estiverem errados, qualquer tentativa de convencê-los continua descabida.” Seu texto me levou para um Natal muito a frente dos nossos dias, onde a pessoa se esclareceu, mas sem perder a ternura. Feliz Natal!
    Severino

  3. Sonia disse:

    Andrea, um Natal cheio de luz pra você !!!!
    Muito amor bem distribuído, com ou sem razão!!!
    Bjs.
    Sonia

  4. Luciane disse:

    Concordo totalmente com a tua razão, Andréa! É quase insuportável entabular um diálogo com senhores da razão, como os bem conhecidos do sábio de todos os sábios, doutores da lei. Ainda bem que o apedrejamento, pelo menos físico, foi abolido. Sobraram as pedras da razão. Excelente reflexão!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s