O pescador e o alpinista: o êxtase da existência

“Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” João Guimarães Rosa

Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.
João Guimarães Rosa

“Existe uma realidade aqui, neste lugar em que estamos agora, e outra mais além. Num mundo diverso, porém não necessariamente com mais diversão.” Em outras palavras, esse pensamento ocupava a mente do pescador durante a travessia do grande lago. Seus olhos refletiam a beleza do lugar e a paz que emanava das águas profundas. Por onde navegava, ele podia constatar o esplendor da natureza.

Entre pássaros que roubam peixes e outros que apenas beijam as flores, voavam centenas de borboletas, de diferentes cores e tamanhos. Todos disputando o céu e as árvores com as maritacas, as araras e até mesmo com o uirapuru. Aves que, quando se juntam, formam verdadeira orquestra, entoando suaves melodias para seus ouvidos.

Dentro da canoa, o pescador apreciava a magia do momento e percebia a grandeza do mundo. Percorria as curvas do rio como se estivesse explorando suas próprias artérias e a água límpida fosse banhando o corpo para revitalizá-lo. A floresta parecia respirar junto com ele e o ar penetrava cada canto do pulmão, oxigenando sua certeza: “Eu sou o mundo e o mundo sou eu”. Verdade interposta entre os períodos de contemplação.

Na sua simplicidade, deleitava-se com absolutamente tudo. E buscava se certificar de que as ondas propagadas pelo movimento do barco transmitissem ao universo sua mensagem de agradecimento pela vida concretizada no agoraqui. Curvado diante da natureza, o pescador suspirou profundamente e sentiu-se Um só.

“Sou eu que faço o meu caminho!” “Não existe caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho!” Waldemar Niclevicz

Sou eu que faço o meu caminho!
Não existe caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho!
Waldemar Niclevicz

Bem distante dali, um alpinista imerso numa realidade também diversa e com semelhante diversão. O desafio da escalada agregava sabor à sua conquista, mas chegar ao cume da montanha representava muito mais do que a superação de obstáculos ou a realização de um sonho: uma indomável emoção. Ele estava ali, perplexo com tanta beleza e, ao mesmo tempo, sossegado pelo silêncio do vento.

Por entre as dezenas de colinas, reluzia o último brilho do sol, intensificando os mais variados tons de verde da floresta e se fazendo luz sobre o caminho que integrou a alma fragmentada.

A lua começou a despontar, trazendo consigo o frescor do sereno. Ali também a montanha parecia acompanhar sua respiração, em movimentos amenos, cada vez mais profundos. Ajoelhado diante da natureza, o alpinista suspirou profundamente e sentiu-se Um só.

Então, tomado pelo êxtase da própria existência, ele gritou: “Que este instante se eternize na minha alma. Eu sou o mundo e o mundo sou eu!”. Prontamente a imensidão do horizonte ecoou sua magnitude.

“Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer Porque eu sou do tamanho do que vejo E não do tamanho da minha altura...” (Fernando Pessoa – Poemas de Alberto Caeiro)

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura…
(Fernando Pessoa – Poemas de Alberto Caeiro)

Pescador e alpinista julgavam-se honrados com sua condição. Cada um a seu modo, no seu tempo, no seu pequeno paraíso. Um, mergulhado nas entranhas do rio; e o outro, alçando voos mais perto do céu. Ambos, conectados pelo mesmo hemisfério, mesmo planeta, mesmo universo.

Quem ousaria demonstrar que o vento que empurra o barco no rio se difere da brisa que balança as folhas das árvores na montanha? Quem seria capaz de provar a diferença entre a gota d’água evaporada do corpo do pescador e o sereno sobre a face do alpinista?

Um e outro, aventuraram-se em suas realidades, conjugando a vida em todos os tempos possíveis. Mas bastou que o universo também suspirasse profundamente para reconhecerem sua sintonia e compreenderem: estavam inundados do mesmo tempoespaço.

Deixando-se arrebatar por essa descoberta, eles se transformaram na natureza de seus sonhos: escamas douradas foram surgindo na pele do pescador e nadadeiras tomaram o lugar dos braços; asas cresceram por entre as escápulas do alpinista, cobertas por uma penugem prata. Aceitando a metamorfose, o peixe mergulhou na correnteza do rio e o pássaro se entregou à corrente de ar. Os dois se encontraram, tempos depois, para celebrar o fluxo do universo.

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Uma resposta para O pescador e o alpinista: o êxtase da existência

  1. Sonia disse:

    Lindo!!! Pena que demoramos para perceber..
    Ou nem percebemos… Bjs

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