Amor contemporâneo?

"O Amor...

É difícil para os indecisos.
É assustador para os medrosos.
Avassalador para os apaixonados!
Mas os vencedores no amor são os
fortes.
Os que sabem o que querem e querem o que têm!" Cecília Meireles

O Amor…

É difícil para os indecisos.
É assustador para os medrosos.
Avassalador para os apaixonados!
Mas os vencedores no amor são os
fortes.
Os que sabem o que querem e querem o que têm!
Cecília Meireles

Por mais clichê que pareça, muita gente acredita que amar é uma arte compreendida apenas pelos grandes artistas. Elas se apegam à versão idealizada do amor, acessível somente para pessoas especiais, em ocasiões singulares. Uma ideia romântica que circula a humanidade desde Adão e Eva e coloca sob suspeita o conceito de amor e a nossa capacidade de vivenciá-lo.

Que arte e amor andam juntos, podemos compreender, pois ambos podem refletir criatividade, beleza, intensidade. Mas artista, de acordo com o Aurélio, é aquele que “revela engenho ou talento no desempenho das suas tarefas” e amar não exige performances extraordinárias. Ao contrário, não há necessidade de interpretações milagrosas.

Amar é amar e pronto! Só existe uma forma: a incondicional. O que varia é o jeito como se expressa este sentimento entre homens, mulheres, pais, filhos, irmãos, amigos. Está valendo, inclusive, a maneira como nos relacionamos com a natureza, com os animais.

Em oposição à maioria defensora do amor como exercício que se pratica a dois, os partidários do “vamos cair na real” argumentam que amar depende do estado de espírito daquele que se deixa arrebatar. Sendo assim, o verbo demanda sujeito ativo, independente do predicado. Pode até pedir um complemento para compor a ação, mas, na incapacidade de amar por completo, melhor colar nossos pedaços e encontrar o próprio eixo antes de nos atrevermos a novos relacionamentos.

Isto porque é impossível amarmos pela metade, meia pessoa, meia “coisa”. Ou amamos por inteiro e inteiramente, ou não é amor. É um simples querer, gostar, desejar.

Dizem que estamos substituindo a necessidade de amar pelo desejo de compartilhar. Entretanto, o amor por complementaridade dos predicados deixou um ranço de incapacidade e dependência afetiva nas relações. E parece que a modernidade vem usando a liberação sexual como antídoto para combater a ilusão do amor romântico.

Será que não passamos de um extremo ao outro? Antes vivíamos uma espécie de simbiose com a “outra metade da laranja” e, hoje, lutamos pela autonomia, de tal forma que perdemos de vista a parte que somos. Na tentativa de preservar a individualidade, nos tornamos sozinhos, sem nos darmos conta da solidão, “sabiamente” disfarçada nas redes sociais.

A cobrança hoje é muito maior no sentido de sermos autossuficientes, mas a versão hollywoodiana do amor continua em voga no imaginário coletivo. Engana-se quem analisa a modernidade, pregando o desaparecimento do romantismo. Ele apenas aparece mascarado no baile à fantasia, cujo o tema é “vamos ser livres e iguais”, seduzindo os foliões para contos de fadas. No fim da festa, as expectativas são as velhas conhecidas de sempre.

O que é, afinal, essa tal revolução do amor e do sexo: mera convulsão social ou confusão afetiva? A vida moderna moldura nossas relações e não há como negar este fato. Recentemente li alguns textos que sustentam a hipótese da mudança concreta. Mas desconfio das tentativas em afirmar que viramos o disco, sugerindo mudança de paradigma. Houve mudança real ou apenas aparente?

É preciso estar inteiro para estabelecer parcerias saudáveis, argumentam meus interlocutores. Para eles, homens e mulheres experimentam novas posições em seus papéis e tendem a superar a falta de praticidade das gerações anteriores. Acreditam que a modernidade vem autorizando a tomada de iniciativa sem se importar com o gênero e propõem o sexo sem culpa. O machismo foi desatrelado da virilidade e o prazer, da moral. Atingimos o ponto em que podemos relaxar e gozar, sem precisar do outro (o que não significa sozinho!).

Talvez como consequência disso, paira no ar certa preguiça e indisposição para o envolvimento afetivo. Nos habituamos demais a proteger nossa rotina dentro do mundo perfeito que criamos para ela. Afastamos as experiências que denunciam nossa alma idealista.

Por outro lado, perdemos a espontaneidade e a habilidade de improvisar. Diante da possibilidade de uma relação por inteiro, corremos da raia. Sem garantia prévia, não vamos a lugar nenhum. E, com isso, derrubamos o mito do amor moderno: não somos totalmente capazes de abrir mão das nossas expectativas românticas.

A arte de amar é simples e singela. Apenas exige otimismo para acreditar que podemos dar o primeiro passo, desapego para nos entregarmos sem sonhar com o resultado e fidelidade àquilo que somos, para não nos deixarmos engolir pela ilusão da toca do coelho. Do contrário, ainda seremos princesas procurando sapos encantados ou sapos esperando pelo beijo libertador.

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2 respostas para Amor contemporâneo?

  1. Cassiane disse:

    Texto lindo e real ! Parabéns !

  2. Ana Claudia disse:

    Consigo resumir em uma palavra: egoísmo !!!
    Nao tome como pejorativo ou negativo. Ha algo de proteção no egoísmo. O medo de sofrer. O medo da desilusão. Mil coisas, entende!!
    E isso, porque, vc esqueceu de falar das cigarras….. As cigarras….

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