O charuto de Freud

"No deserto acontece a aurora. Alguém o sabe." Jorge Luis Borges

“No deserto
acontece a aurora.
Alguém o sabe.”
Jorge Luis Borges

Atravessar o deserto interior exige tempo, discernimento, disposição, coragem e bom humor. Há quem escolha outros ingredientes, mas tudo bem! A validade deles consiste na preferência de cada pessoa, pois tudo é relativo e depende do contexto em que estamos. De qualquer maneira, um bom camelo pode facilitar a viagem, permitindo que possamos nos concentrar na paisagem.

Dizem que o tempo funciona como remédio para quase tudo: superar a dor da perda, vencer dificuldades, esquecer frustrações, aplacar a saudade, cicatrizar feridas, nos fazer mais sábios, tornar familiar o desconhecido e até acomodar as relações afetivas na rotina. “Mas se a fórmula fosse milagrosa”, esbravejou uma amiga, “já teriam encontrado um jeito de engarrafá-lo, com direito a patente, bula e lugar de destaque na prateleira da farmácia”.

O tempo não é charuto. Nem cura nada. Ele apenas testemunha os estágios irreversíveis da travessia. Abre possibilidades, mesmo limitando nossas fronteiras. Impõe prazos, pressionando as ações, ainda que condescendente com as decisões que tomamos . Por outro lado, garante o projeto do infinito e a certeza de que, inacabados que somos, a transição pelo “Saara” representa apenas uma das etapas da vida. A menos, claro, que sejamos capturados pela ilusão de ótica e nos deixemos aprisionar eternamente num oásis qualquer.

Momento oportuno para falar do discernimento. Miragem também não é charuto. Se não soubermos identificar a direção para onde caminhar, “até o vento será desfavorável”. E não adianta enfrentar as tempestades de areia. Elas são imprevisíveis e reduzem a visibilidade por completo. O mais prudente é parar, se recolher num abrigo. Elas não duram para sempre. Nesse momento precisamos apenas deixar a poeira assentar. Depois, sim, cabe o trabalho de diferenciar suas “partículas”. Mas isso requer disposição.

Essa é fácil: já sabem: disposição não é charuto! Somente as múmias não possuem vontade ou desejo. Portanto somos almas que pulsam, propensas à busca de algum querer. Se nos dispomos a entrar no deserto, isso deve-se ao fato de reconhecermos as faltas e tentarmos fecundar a aridez do ser. Então, nossa vocação é seguir em frente. Ainda que o camelo fuja, num instante de distração. O vigor nos habita. Basta acionar a coragem.

Parceira inseparável e talvez o ingrediente mais libertador de todos, porque autoriza a valentia. Certa ousadia para assumir riscos, sem a preocupação com os resultados. Afinal, independente do que tem por trás das montanhas de areia, subir e descer seus morros reflete o esforço empreendido para vencermos as fragilidades humanas. Já estava esquecendo de dizer: coragem também não é charuto.

Quanto ao bom humor, vamos economizar o texto! Ele dispensa longa defesa. Se penetrarmos na seara desértica da nossa individualidade, melhor que o façamos sorrindo com o fígado. No deserto podemos tudo, inclusive gargalhar livremente, sem medo de sermos felizes e de mostrarmos os dentes amarelados por termos fumado todos os charutos de Freud. Ninguém vai notar esse detalhe. E, se reparar, pouco importa. Entregue-se à aventura com o prazer de revelar-se a si mesmo, despindo-se das vestimentas bordadas pela culpa e outros adereços que conferem peso desnecessário ao corpo sutil. A temporada da descoberta é preciosa demais e quem se atreve às areias, com disposição, não deve perder tempo com perfumarias.

“A vida é curta para ser pequena” e “um charuto é somente um charuto”. Só precisamos nos convencer de que, às vezes, um deserto é apenas um deserto necessário e passageiro: basta montar o camelo, enrolar um turbante na cabeça, abandonar o oásis e seguir em frente.

E boa viagem!

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2 respostas para O charuto de Freud

  1. Ana Claudia disse:

    Se tempo fosse remédio, nem precisava engarrafar…. (ou envasar? Afinal engarrafar seria de engarrafamento – trânsito!! ;-)). Votar ao foco… Se tempo fosse remédio, as prateleiras das farmácias e drogarias venderiam relógios! De pulso, de parede, de pé, de bolso…. Por falar em bolso, pergunta de algibeira: porque o charuto de Freud? Acho que varias comparações fazem ate sentido… Pelo lado de que sim, são iguais, queimam e acabam em cinzas!!

    • Olá, Ana!
      Sugiro uma busca rápida no Google, pois há diferentes formas de interpretar a metáfora do charuto e cada um deve tirar o proveito possível de acordo com sua história.
      Mas voto a favor de sermos mais positivos com relação ao que Freud disse: nem tudo acaba em cinzas!
      Nossa alma continua pulsando… mesmo depois de torrarmos no calor do deserto.
      Por isso, o descobrimento de si mesmo também não é um charuto!!
      bjka
      😉

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