O mundo pertence aos normais

Que o corpo se comunica com o mundo ao redor, todos concordamos. De maneira bem peculiar ele expressa nossa história, sendo fiel às emoções e aos acontecimentos. Porém, nem sempre entendemos ou acolhemos sua sabedoria. Mais ou menos, repetimos o padrão de comportamento que mantemos com o nosso anjo da guarda. Lembram? Agimos com certa rebeldia e ingerência, ignorando os limites da matéria.

Há quem encare essas limitações físicas como desafio e tome para si a tarefa de superá-las, conseguindo convencer o corpo de que estão no comando. Por outro lado, encontramos também aqueles que se deixam dominar totalmente: no primeiro grito do corpo, vão logo vestindo a carapuça e acomodando o esqueleto na situação.

Pouco importa se a fala é branda ou bruta. O corpo dá um jeitinho de passar seu recado, mesmo que a mensagem fique nas entrelinhas e nos confunda. Às vezes levamos dias para decifrar seus enigmas: o que significa este sintoma? O que há por trás desta doença ou deficiência? Por que determinado acidente ocorreu, afetando exatamente este órgão?

Alguns acreditam ser desnecessário responder a essas questões, classificando os que criam tais pontos de interrogação como “maníacos querendo interpretar tudo”. Talvez todos tenham razão: os céticos e os crentes!

No meu caso, me enquadro melhor na segunda categoria. Sem pudor, nem constrangimento: sou adepta da crença de que há uma razão para tudo, sempre existindo uma emoção colada nela. E feliz daqueles que percebem esta parceria.

Por isto, depois de um belo tombo na sarjeta e um joelho quebrado, posso me render, bem alegrinha, à fala do corpo: “Curve-se diante deste momento e contemple a vida como ela é”. Provavelmente o contexto e os fatos permitem outras leituras. Entretanto, a restrição do movimento brindou minha rotina com novos significados e me fez experimentar diferentes posições. Literalmente, porque ficar de “perna pro ar” não fazia parte do meu roteiro. Coincidência ou não, nasci com os pés primeiro, pronta para explorar os caminhos do mundo. E simbolicamente, porque migrei do robusto grupo dos que pedem “um passinho pro lado, por favor” para o pequeno time dos que cedem passagem aos mais apressados.

Com tempo de sobra, perambulei pela internet para conhecer este novo (para mim) universo dos “especiais”. Entre ataques e defesas, um depoimento me acertou em cheio: reclamaram que os “brancos normais” estão vivendo em pé de desigualdade com as demais classes: ou as cotas são para negros, quilombolas e índios, ou protegem os “portadores de necessidades especiais”. Mas, baseada nas observações durante as últimas semanas, quase posso afirmar que o mundo pertence mesmo aos “normais”. Em pé de desigualdade, coisa nenhuma! Estamos longe de reduzir a defasagem entre os grupos sociais.

Nem é tão raro encontramos pessoas solidárias com aqueles que apresentam alguma característica extraordinária. Porém, muito mais frequentemente, nos deparamos com pretensos cidadãos atropelando os passos dos idosos e de quem mais não consegue andar no ritmo da sociedade.

"Nós só fomos ali e não demoramos nada" :D (foto: Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro)

“Nós só fomos ali e não demoramos nada” 😀
(foto: Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro)

Constatar os meios como essa mesma sociedade conversa com o nosso corpo gera muita frustração, pois dependendo da situação, sequer as leis garantem um diálogo civilizado: as vagas “especiais” são ocupadas por carros “normais”; pessoas “saudáveis” acomodam-se nos acentos “preferenciais”; os “mais espertos” furam a fila do atendimento “prioritário”; os motoristas brigam com os cadeirantes que transitam entre os carros, mas se esquecem do calçamento irregular. E assim caminha a humanidade. Quer dizer, os que aparentam condições “normais”.

Dessa forma, não me surpreendo com o fato de um país precisar recorrer às políticas públicas para tentar minimizar as desigualdades sociais. Mas convenhamos: o equívoco não está na lei ou nos direitos humanos! Atitudes simples, tais como gentileza e camaradagem, deveriam ser suficientes para atender as necessidades especiais no dia a dia. Afinal, respeito não se pratica por decreto e algumas “deficiências” só podem ser corrigidas de dentro para fora.

Vou continuar integrando a “classe especial” por algum tempo, mas já fico me perguntando: “Quantos joelhos precisam ser quebrados para que possamos tomar consciência destas disparidades e transformar a ordem mundial?”

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3 respostas para O mundo pertence aos normais

  1. Luiz Tannous disse:

    Mais que um comentärio, minha querida, pois vc jä sabe, de sobra, qual o meu conceito a respeito de tudo que vc escreve.Hoje, um desejo, que vc possa tirar, com toda a tua sabedoria, todo o aprendizado que esta situação traz consigo.Aproveite e se cuide! Bjo grande dos (2)-rsrsrs

  2. Juliana disse:

    Andrea, que delicia de texto! Precisamos todos de um tapa na cara mesmo…hehehe…rezo por seu joelho (e por você inteira)! Beijo no seu coração!

  3. Suely Pucci disse:

    Brilhante, Andrea!!! Impecável. No alvo. Beijos!

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