Levada da breca!

“A penosa arte de se divertir”. Este, sim, deveria ser o título de um livro sobre a vida daquela mulher. Nascida numa grande família, passou a infância rodeada pelos irmãos e vários primos. Juntos, aprontavam todas. Só que ela se destacava pela molecagem.

Ainda criança, pulava o muro dos vizinhos para se esconder do “capitão”. Aquele que contava até vinte, de olhos fechados, antes de sair procurando a criançada. Mas ela raramente era flagrada. Conhecia todas as manhas e se metia em buracos onde ninguém tinha coragem de entrar. Até que um dia, numa daquelas tocas, ela foi picada por uma aranha venenosa e teve de ser internada. Dois dias de medicação na veia e uma semana de castigo.

Menina espoleta. Apostava corrida de perna-de-pau com os colegas, na maior cara-de-pau. Por ser magricela e ter pernas compridas, já tinha prática no ofício. Até que um dia, tropeçou na sarjeta. O tombo foi feio e ela quebrou o braço, sendo levada às pressas para o hospital. Um mês de gesso, sem poder sair de casa.

Cresceu na rua, fazendo algazarra. Arrumava bola para tudo quanto é jogo. E não perdia o rebolado. Também não faltava talento para transformar sabugo de milho em boneca e graveto de laranjeira em estilingue. Até que um dia, durante o campeonato de “tiro ao alvo”, o elástico do adversário arrebentou e ela “ganhou” uma pedrada na cabeça. Lá foi a menina para o pronto-socorro, toda ensanguentada: cinco pontos, um rombo no couro cabeludo e umas boas palmadas dos pais.

Transitava naturalmente pelo universo das brincadeiras, com meninos e meninas. Formavam a Irmandade do Barulho. E quando a gritaria não ecoava da torcida, vinha sempre de alguma briga entre os times. Ela se dava bem com quase todos. Até que um dia, se envolveu numa disputa física e levou um soco no olho. Tentaram estancar o ferimento com uma bolsa de gelo, mas não resolveu. E ela foi parar na enfermaria, recebendo dois pontos na sobrancelha. A bronca veio na sequência, acompanhada de uma semana sem colocar a cara fora do quarto.

E assim passou o tempo. Nos intervalos entre as punições, ou estava sendo socorrida no hospital, ou arquitetando peripécias pelo bairro. Ao chegar na adolescência, mais parecia o Frankenstein, cheia de cicatrizes pelo corpo. Mas, no íntimo, ela achava graça naquilo tudo. Acreditava que a vida se resumia numa aventura e, então, ela se lançava aos desafios.

Enquanto percorria a primeira etapa da juventude, experimentou outras “brincadeiras”. Dessa vez, divertia-se namorando e dançando madrugada adentro. No final das festas, costumava sair com “a turma” para roubar pão fresco na varanda dos vizinhos, depois se reuniam na casa dela para fazer o café. Vez ou outra, ela bebia alguma coisa mais forte, sem exagerar. Até que um dia, rejeitada pelo namoradinho, tomou o litro de cuba libre sozinha e quase entrou em coma. Os amigos acudiram, mas não houve escapatória: pronto-atendimento e mesada cortada por um mês.

basta-mafaldaOs anos se foram e ela chegou à segunda etapa da juventude: momento de “escolher uma profissão” e começar a “levar a vida a sério”. De tanto frequentar hospitais, optou pela enfermagem. Logo que concluiu o curso, foi trabalhar na emergência. Rotina complicada, realidade malfadada e remuneração minguada. Gostava muito do que fazia, até que um dia se deu conta de que havia perdido o jogo de cintura. Acumulou responsabilidades demais e sentiu o peso da seriedade nos ombros já adultos.

Se antes as broncas eram consequência de alguma travessura, agora a história era outra. Ela estava cansada de “apanhar” sem se divertir. Foi quando percebeu a nostalgia invadir seu desejo e convidá-la para a maior de todas as suas aventuras: voltar a ser criança.

Aos poucos, foi se esquecendo das coisas do dia a dia e se entregando ao passado. Dessa forma, envelheceu. Ela terminou os dias, feliiiiiiiiiz da vida, brincando com suas bonecas e fazendo todas as traquinagens.

E nunca mais ficou de castigo.

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Uma resposta para Levada da breca!

  1. Suely Pucci disse:

    ANDREA!!! Este conto me faz pensar na importância de não deixar “morrer” nossa criança interior, não levar a vida “tão a sério” e não sobrecarregar nossa “mochila”. Viver e não ter a vergonha de ser feliz!!!

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