Fogo no Rio de Janeiro

Era uma quarta-feira como outra qualquer. Sem nenhuma expectativa. Apenas o trivial: acordar, sair para o trabalho, voltar para casa e dormir novamente. Nos intervalos, o dia seria preenchido pelas mesmas atividades. Mas nada disso reduzia a alegria de viver. Ao contrário. Sem grandes preocupações, nem imprevistos frequentes, realizar as tarefas diárias era prazeroso para Dona Julia.

Paulistana, agia com firmeza e competência no trabalho, sem perder o jogo de cintura com as pessoas. Os colegas desfrutavam do seu dinamismo e bom humor. Dona Julia demonstrava sabedoria nas decisões e liderava o grupo com perspicácia. Encontrava soluções criativas para os problemas e todos ganhavam com os resultados.

Depois de oito meses morando no Rio, chegar em casa significava entrar no paraíso. Sempre otimista e sociável, rapidamente fez amizade com os vizinhos, o que lhe rendia alguns convites para café e festas de família. Costumava guardar uma palavra amiga para quem procurasse o consolo dos seus ombros e distribuía simpatia no elevador. Do primeiro ao último andar, sobrava admiração por ela. Conquistou respeito e amizade entre os porteiros, tornando-se uma espécie de “moradora modelo”.

Não demorou muito e já passou a colaborar com o síndico. Quando surgia algum problema no prédio, ele corria para bater no apartamento da Dona Julia, buscando conselhos. Era uma mulher prática. Nas reuniões extraordinárias fazia ponderações e sugestões objetivas, colocando um fim nas discussões.

Viviam na santa paz. Ultimamente, o mais novo inquilino andava provocando os nervos dos moradores. No final de semana fez uma festa de arromba, deixando todo mundo irritado com o volume da música, até que o dia amanheceu. Foi a terceira festa, em menos de dois meses. Mas, sendo recém-chegado, os vizinhos acreditaram que logo ele se adaptaria ao estilo do condomínio e as coisas voltariam a entrar nos eixos. Assim, decidiram ser tolerantes por mais um tempo.

Era para ser uma quarta-feira como outra qualquer, não fosse a paciência da Dona Julia ter se esgotado. Lá estava ela, às voltas com a folia do novo vizinho, que oferecia mais uma reunião para os amigos. Desta vez o som da televisão se misturava com a conversa das pessoas. A cada dez palavras, sete eram palavrões. Até que finalmente alguém gritou:

– Fogo! Fogo!

Imediatamente, Dona Julia colocou cabeça fora da janela, procurando entender o que estava acontecendo. Temia pelo pior.

– Fogo! Fogo!

O coro de vozes aumentou e ela correu para o hall de entrada buscando respostas. Desceu a escada até o quinto andar, com o nariz empinado para farejar qualquer sinal de fumaça. Nada. Tudo parecia normal e nenhum outro morador tinha aparecido para checar a origem do alerta.

– Fogo! Fogo!

mas sem chamar os bombeiros!!

mas sem chamar os bombeiros!!

Alterada com aquela situação, Dona Julia colou os ouvidos na porta do vizinho e lembrou: era uma quarta-feira como outra qualquer, em que os amigos se reúnem para beber e assistir futebol. Naquele dia, o Botafogo jogava contra o Corinthians, seu time do coração. E a “moradora modelo” resolveu dar uma lição no vizinho, chamando os bombeiros. Afinal, paulista até pode brincar com o “fogo” carioca.

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Uma resposta para Fogo no Rio de Janeiro

  1. sonia silveira disse:

    Boa!!!! Bjs

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