O prazer da espera

Jamais havia pensado sobre o quanto um voo atrasado pode ser enriquecedor. Em geral, nossa primeira reação é de revolta com a companhia aérea ou de preocupação com o horário do compromisso seguinte. Tomados pela impaciência, condenamos a espera ao pior dos testes. E raramente vencemos essa prova com humor.

Assim acontece nas outras situações em que experimentamos certa demora: no consultório médico ou de dentista; na fila do supermercado, banco ou ponto de ônibus. Ficamos envolvidos pela irritação difusa e desperdiçamos a oportunidade de explorar o mistério do momento. Regulamos nosso relógio interno para o tempo futuro e nos sentimos obrigados a correr atrás das horas que estão por vir. Deixamos de aprender com a diversidade das pessoas, entabulando diálogos superficiais e quase nada construtivos. A desculpa é sempre a pressa ou a falta de “intimidade”.

Nessas ocasiões de aparente “perda de tempo”, vale observar o mundo ao redor e reconhecer a verdadeira representação do humano em nós. No mínimo, é fascinante emprestar a atenção para o “ócio” e deixar os olhos e os ouvidos percorrerem os acontecimentos. Podemos nos surpreender com a vida que pulsa do lado de fora e dela tirar alguma lição. A possibilidade de interagir em diferentes espaços não deixa de ser uma forma de exercitar algumas virtudes: tolerância, empatia, cordialidade.

Em cada situação, um enredo particular. Nas filas, a conversa tem conteúdo mais generalizado. Falamos do tempo bom, do tempo ruim, da falta de tempo, da qualidade dos serviços e do preço das coisas. Os minutos passam sem permitir muita conexão entre as pessoas. Ainda assim, uma “paquera” pode evoluir por distração. Ou, pelo menos, entramos num outro clima: o da meteorologia. E ainda ficamos em dia com as previsões.

Nos consultórios, a realidade é outra. Para cada especialidade, uma teia de informações. Com frequência, as conversas giram em torno dos problemas de saúde, com dicas sobre as mais variadas soluções e receitas de qualidade de vida. Acabamos realizando dois tipos de consulta: com o profissional que vai nos atender e com o “pouco de médico e de louco” existente em cada um dos que pacientemente aguardam sua vez. Exceto aqueles que tentam afundar a cabeça numa revista qualquer, a maioria fala pelos cotovelos, atraindo os afins. A espera prolongada gera um pouco mais de “intimidade” e o desenrolar dos assuntos vai ganhando diferentes contornos. Pena que os consultórios insistam em deixar a televisão ligada. Será que não percebem que isto atrapalha a socialização?!

Mas lugar que aguça ainda mais a curiosidade é plataforma de rodoviária e sala de embarque de aeroporto. Talvez porque as pessoas estejam em trânsito, é instigante imaginar o que elas carregam na bagagem. De onde vieram e o que farão no destino? Qual a história de cada uma? Que circunstâncias as levaram até ali? Encontramos todos os estilos: desde terno e gravata, salto alto e tailleur até bermuda, chinelo e minissaia.  Homens e mulheres para todas as preferências. Uns mais sérios, concentrados no próprio silêncio. Outros descontraídos, quase que procurando a “outra metade de si”. Muitos, eufóricos, talvez com os resultados do trabalho. Alguns, deprimidos, imersos numa incontestável nuvem de tristeza. Casais se desentendendo por algum motivo “sem importância”, pais e filhos esbanjando alegria com a viagem de férias.

554530_370318309715460_1522326018_nParece magia. Adivinhação. Só de repararmos no “lado de fora”, quase conseguimos desvendar segredos e sonhos. É um engano acreditar que podemos nos esconder na multidão. Mesmo de longe, basta um olhar atento e ouvidos sensíveis para acessarmos o invisível.

A vida acontece ao alcance da nossa percepção. O problema é que estamos tão viciados na expectativa do futuro, que pouco nos lambuzamos de prazer pelo instante presente. Contemplar o acaso é saboroso. Se mergulharmos na intensidade da experiência, podemos descobrir um novo universo e reduzir distâncias. Uma espécie de aconchego nos torna capazes de sentir a essência das pessoas. Por isso, nada de cruzar os braços enquanto esperamos: viva a eternidade dos segundos!

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3 respostas para O prazer da espera

  1. Edna Wilck disse:

    Rica sensibilidade, moldada pelo “olhar” intenso de poesia, da realidade que, como diz você, se dispersa na ansiedade do “futuro”. Fico gratificada de ter acesso às suas crônicas pulsantes, de retalhinhos brilhantes, acordando para um novo ato de ver e sentir. Um “estar em si no mundo e com o mundo”! 1000 carinhos e saudades de tê-la a alguns centímetros para um gostoso abraço.
    Edna Wilck.

  2. Aline disse:

    Que delícia de texto, minha querida amiga! Me lambuzei!!! 🙂

  3. sonia silveira disse:

    Mal de “distancias” é triste….

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