SOS Brazil

“O Brasil não conhece o Brasil. O Brasil nunca foi ao Brasil. ... O Brasil não merece o Brasil. O Brasil tá matando o Brasil.” Querelas do Brasil, composição de Maurício Tapajós e Aldir Blanc, cantado por Elis Regina

“O Brasil não conhece o Brasil.
O Brasil nunca foi ao Brasil.

O Brasil não merece o Brasil.
O Brasil tá matando o Brasil.”
Querelas do Brasil, composição de Maurício Tapajós e Aldir Blanc, cantado por Elis Regina

Foi tudo combinado. Desde o começo, eles pensaram em todos os pormenores. Calcularam cada passo, definiram as ações e previram o impacto delas, com segurança.

Sabiam muito bem com quem estavam lidando: estrangeiros em sua própria terra. Em momento algum, duvidaram da capacidade para dominar tudo e todos. Escolheram a dedo os parceiros, formando as alianças necessárias para garantir seus objetivos. E eles se tornaram cumplices na caminhada de longas e, aparentemente, infindáveis décadas.

Deram início ao “plano infalível” quando ninguém mais acreditava na possibilidade de uma reviravolta. A ilusão da estabilidade e do progresso já havia tomado conta do país, afastando qualquer dúvida e rebelião.

Foram adiante, lançando mão de estratégias legítimas para burlar a justiça e nos iludir. Proveram a nação com entretenimento popular: nos deram a copa, enquanto cozinhavam nossos recursos para alimentar sua ganância.

Como puderam ser tão petulantes? Puderam. Com o servilismo naturalizado dos eleitores, pelo menos na sua maioria, eles ganharam carta branca para fazer e acontecer. E fizeram.

De forma criativa, lucraram escandalosamente com as grandes e pequenas construções como o caso do metrô, de algumas usinas, escolas e estradas. Nem mesmo a merenda das crianças foi “poupada”! Difícil encontrar um setor em que não tenham se infiltrado. Eles se reproduziram como os Gremlins, massacrando nossa moral.

A descoberta mais recente foi o pagamento dobrado ou triplicado de salários. Dizem que serão obrigados a devolver o dinheiro. Não aposto nisso. E não sou a única. Tem até jornalista, o Boechat, da Band News, prometendo doar um bom valor para alguma instituição filantrópica, caso a justiça seja cumprida. Tomara que nenhuma instituição dependa desta caridade.

Eles tentam disfarçar. Às vezes, passam uma maquiagem barata na cara para fascinar o povo. Chegaram a demitir uns e outros do alto escalão. Simularam um julgamento. Criaram alguns heróis épicos para distrair o circo e confundir a nação. Tudo não passou de uma tática. Eles são astutos e sabem medir corretamente os riscos a longo prazo. Formam uma grande família e, quando se trata da redistribuição eterna de propinas, jamais produzem equívocos.

Mais conhecidos como “políticos”, já interpretaram vários outros papéis: vampiros da saúde, sanguessugas, anões do orçamento, turma do Lalau, máfia dos fiscais, mensaleiros. Eles dominam bem o teatro do absurdo e aproveitam a atmosfera de estranheza para continuar agindo. O papel mais recorrente é o de “traidores”, pois estão sempre envolvidos em esquemas flagrantes de apropriação e uso indevido da nossa boa-fé. Talvez recebam o Oscar por essa atuação. E, podem ter certeza, se a estatueta for roubada antes da festa, eles encontrarão uma saída lucrativa e constitucional como prêmio. Aposentadoria compulsória, por exemplo.

A cultura da impunidade é mesmo uma tradição em nosso país. O curioso é que, depois que “a banda passou”, parece que tem artista se manifestando a favor de um desses protagonistas. Custei a acreditar no que li por aí. Será que o meu ídolo da “flor da terra” se enroscou no ritmo da marchinha? Esse foi um golpe sem anestesia. Bem que as pessoas falam: “Ninguém é perfeito!”

E eu, que acreditava que as eleições futuras poderiam ser a nossa salvação, já comecei a desconfiar do meu idealismo. Disseram que estamos muito longe de poder reverter o jogo com o nosso voto. Ainda mais com o troca-troca de legendas: as siglas mudam, mas as pessoas continuam as mesmas. É preciso acordar para a realidade, mas o gigante está entregue nos braços de Morfeu.

Qual seria a cura possível para nós, brasileiros? Com o sistema de saúde que temos, só apelando para despacho de santo. Mas parece que eles também entraram em greve. São mais uma dessas bolhas de reivindicação que andam estourando como reflexo das grandes manifestações.

Então, já que Deus é brasileiro, podemos rezar muito, implorando para que Ele nos coloque de volta na Sua lista. Entretanto, como o Papa é argentino, não sei se vai funcionar. É… ainda por cima, tem aquele ditado desanimador: “Santo de casa não faz milagre!”

E agora, que jeitinho vamos dar?

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4 respostas para SOS Brazil

  1. Sami disse:

    Andrea senti nesse texto um grande desabafo, que o tomo para mim. Todos os dias quando leio os jornais e vejo pipocarem escândalos de corrupção, políticos legislando em causa própria, desigualdade social, etc, sinto que estamos caminhando para o abismo, se é que já não estamos nele há tempo. Sempre procurei ser otimista e acreditar que as coisas “se ajeitam” mas ultimamente está difícil manter esse pensamento…

  2. Maria Luiza silveira disse:

    Andrea,
    Texto perfeito, pena que a trama se passa num país corrupto e sem chance de mudanças. E, o pior: este país é o nosso.
    Beijos
    Maria luíza

  3. Edna Wilck. disse:

    Olá, Andrea, desde sempre, ou será que já estivemos mais asseados dentro deste projeto de “nação” inconcluso, por todas as razões que voce explicitou em seu memorável texto?!

    Digo-lhe, ouso traduzir que um enorme volume da ‘dor’, ausência de saúde física, emocional e espiritual deste povo todo está assentada nesta gigantesca proporção de descalabros em todas as instituições brasileiras. Herança antiga, onde a educação obrigatória os constitue ‘analfabetos” do que seja conceito de direito e cidadania! A que patrão servimos?

    Somos uma massa com conteúdo de inércia, medo, complacência, adoecidos e descrentes, porém, sem a menor ação. Laboratório do refugo do que entendo como ser um ativo pensante, um sujeito de si mesmo, em pleno colapso de estado de UTI, agonizante, merecedor de eutanasia ou choque decisivo para entender-se como humanóide. Ao menos como principio de consciência!

    Existe umas tribos dispersas, ainda atentas, mas qual o antídoto,a vacina para acordar e entender-se como cidadão, acordando do sono da picada promovida pela mosca tsé-tsé e tomar o Brasil em suas mãos de novo?

    Para mim, a palavra é revolução e acabar com esta condição de “menoridade”, como dizia Kant, e entender que a condição de Estado paternalista não nos serve! Temos toda a responsabilidade neste estado infeccioso de coisas!

    O horizonte é extremamente incerto e o país, sem memória! Fico nesta condição, por ora, mas colocarei-me na estrada e luta por mudanças logo que o chamado, as trombetas, derem o sinal.

    Voce é uma destas almas de ativo expedicionário, Andrea. Junto-me a voce. Estou a postos, é só chamar.

    1000 carinhos e lhe agradeço, amiga de sempre!

  4. Parabéns pelo texto, Andrea!
    Sei que um dia chegaremos lá.

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