Onde perdemos os filhos?

Em tempos remotos, dedicar-se à família e acumular uma boa herança eram tarefas primordiais. Os pais viviam para executá-las com empenho. A educação dos filhos, assim como a carreira profissional ou os negócios, roubava sua atenção exclusiva. Sobrava pouco tempo para o desenvolvimento pessoal.

As famílias davam mais importância àquilo que as crianças se tornariam ou deveriam se tornar. Expectativas e sonhos marcavam suas relações. De um lado, os adultos abriam mão de si mesmos. Do outro, as crianças carregavam a sina de ser o reflexo dos pais.

66165_525929064096669_947961305_nNa tarefa de desempenhar o papel que cabia a cada um, o afeto se diluía. Em meio às obrigações sociais cotidianas, os diálogos giravam em torno das exigências e os abraços se limitavam aos dias de festividades.

Assim era a vida da maior parte das famílias, em especial as de classe média. Embora houvesse amor, a convivência entre os membros do grupo permitia expressar pouca emoção.  Válido mesmo era o reconhecimento da autoridade. Esperavam dos filhos obediência inquestionável. E, entre os casais, fidelidade ao compromisso de educá-los.

O mais comum era encontrar marido e esposa negligenciando sua união amorosa em nome da prole. Renunciavam a possibilidade do romance para viver o casamento de maneira tradicional: pai e mãe não eram seres comuns, com direito a crises existenciais e aspirações individuais. O coletivo familiar se impunha, desqualificando qualquer pretensão pessoal.

Esse tipo de relação gerava dívidas morais impagáveis: os pais viviam para os filhos e estes, em contrapartida, deveriam viver pelos pais. O fardo da renúncia de uma vida própria caía, naturalmente, sobre os filhos. Tentando driblar este fato, a segunda geração se via presa ao dilema: conquistar independência ou amortizar o “empréstimo” feito pelos pais?

Alguns se tornavam péssimos pagadores. Outros, bons devedores. Vários ninhos entravam em crise por causa do vazio deixado pela saída da prole. Poucos pais aproveitavam a ocasião para investir em seus próprios projetos. A maioria permanecia tratando os filhos como crianças, reapresentando a nota promissória a cada visita, telefonema ou carta. O preço era alto demais para ambas as partes, acrescentando também juros emocionais sobre a relação.

Essa realidade histórica comprova que a melhor herança que podemos deixar para os filhos é cuidarmos da própria felicidade. Quando procuramos crescer como pessoas e desenvolvemos a capacidade afetiva, os filhos também se potencializam. Eles se tornam fortes para voar mais longe, sem perder o rumo de casa. A volta por livre espontânea vontade é prazerosa.

996708_466999266727994_1810834959_nMas pássaros que levam em suas asas a frustração dos pais perdem a vitalidade. Eles se afastam do ninho como quem foge do cobrador algoz. Sentenciam os pais à solidão que eles mesmos criaram ao abandonar os próprios sonhos para preencherem seus dias com a vida dos filhos.

Pais que desistem do convite de ser pessoas melhores, depositando todas as fichas para tornarem seus filhos melhores, correm o risco de se frustrarem na mesma medida. É como mergulhar no abismo. Nunca sabemos o que acontece durante o salto, mas a queda é certa. Por isso, ao perguntarmos onde perdemos os filhos, a reposta só pode ser uma: naquele exato momento em que nos perdemos de nós mesmos.

Esse post foi publicado em Meditando e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Onde perdemos os filhos?

  1. Maryslaini disse:

    absolutamente verdadeiro e perfeito esse texto ! parabéns !

  2. Severino Vasconcelos disse:

    Dra. Andréa, boas…

    Sempre leio atentamente suas publicações, mas esta mexeu comigo. Órfão de pai desde a tenra idade de 8 meses de vida, mamãe “mulher parideira” teve 16 filhos, criaram-se 11, cada um a sua maneira, mas todos se encaminharam na vida, nenhum se desviou… Ela teve sorte ou a nossa máscara de liberdade não teve tempo de cair? Hoje eu sou pai de dois, a menina de 23 anos foi adotada, o menino tem 16, dá um trabalho de doer o cérebro, e eu sou um pai enérgico, do contrário ele já teria me engolido… Será que a tão falada liberdade não partiu para o descaso (Família e Educação)? Quando escuto uma mãe falar “eu não posso fazer mais nada com esse menino (a)!” eu fico… Tenho constantemente perguntado: e quem vai fazer? Certa noite vi um carro da polícia dando “baculejo” – aprendi esta palavra com meu filho – batendo na cara de três jovens, aquilo me doeu, mas entendi que tudo estava certo. O certo tá certo, o errado tá certo, tá tudo certo! Seria isso mesmo? Pra ser sincero: está faltando responsabilidade, amor, governo, está faltando tudo, inclusive Deus na alma dessas pessoas. Quanto ao seu tema: em muitos casos os filhos são perdidos ainda na fita pai (no ventre materno), na educação, na postura de amor, sem ter que declinar a nenhum tipo de outras posturas, e sim assumir aquilo a que se propôs fazer…
    Severino Vasconcelos
    (Um amigo na Praça!)

    • Amigo Severino, seus comentários são sempre bem vindos! Agradeço o carinho e a oportunidade de complementar sua colocação: Você tem razão ao constatar as “faltas” que marcam nossa sociedade. Os tempos estão difíceis para a jornada da alma e, por isso mesmo, precisamos acelerar a busca do que é realmente essencial para o Ser. Os valores espirituais e a integridade pessoal deveriam ser lições garantidas pelos pais, no seio da família. Mas isso depende das condições de vida de cada grupo familiar e também do preparo anterior dos pais. Muitas vezes o descaso é proveniente da distorção de valores, encontrada dentro de casa mesmo. O mais comum é ver pais falando uma coisa e fazendo outra. Cobram dos filhos atitudes para as quais não deram exemplo. Querem que os filhos sejam bem sucedidos e felizes, mas deixaram de cuidar da sua própria felicidade. Enfim, o “certo” é praticarmos aquilo que pensamos; quando pensamento e atitude estão sincronizados com valores de bem, todo mundo é beneficiado. Desejo que o caminho dos seus dois filhos seja sempre iluminado com a sua consciência crítica e com a ternura que você carrega no coração. Deixo um abraço fraterno, com gratidão! Andrea

Deixe uma resposta para Severino Vasconcelos Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s