Posto o desafio, por quê continuamos vivendo as contradições?

Sinto-me quase que completamente difusa em meio a ideias e sentimentos. Zilhões de coisas passam na minha tela mental e eu tento nomeá-las, uma a uma, tal como o exercício da meditação, que nos ensina a dominar o bombardeio de energias para estabelecer um equilíbrio. Entretanto, a rapidez com que as imagens se formam e esculpem um corpo de pensamento é a mesma com que elas se diluem, cedendo espaço para as demais, que não param de fazer os neurônios pipocarem.

942763_411662072281094_689275969_nSimplesmente não dá para repousar a alma. De um lado, sinto uma enorme vontade de denunciar o sofrimento humano. Do outro, um intenso desejo de enaltecer nossa força de transformação e colorir suas asas. Simultaneamente, sou movida pela consciência do nosso potencial e pela consistência do real. Leveza e pureza numa ponta da balança versus a densidade do cotidiano no extremo oposto, reverberando a violência social e o descaso humano.

E então, tomo um gole de vinho e me pergunto: em que direção devo lançar o meu olhar?

O frescor de uma brisa que sopra pela janela me faz sentir o conforto e o aconchego da minha casa, enquanto as imagens da África, expostas no meu mural, provocam um grande pesar por todos aqueles que, neste momento, devem estar nos campos de refugiados ou esticados num canto qualquer de uma rua suja e quente. Não necessariamente esse cenário fica do outro lado do continente; não é preciso atravessar o oceano.

Recebida a tarefa de seguir em frente, não consigo me desfazer da pergunta: por quê? Por quê o mundo é assim tão desafiadoramente antagônico? Por quê esta contraposição de realidades se instaura em consequência das nossas relações de poder, de dominação, nas suas mais variadas facetas (capitalistas e humanitárias)??

"É preciso sair à rua, é preciso revoltarmo-nos, é precisa esta insubordinação (...) Ou nós vamos melhorar a miséria, ou nós vamos resolver o mundo, a nossa vida e a nossa esperança. Portanto, acho que não há outro caminho que não seja a insubordinação (...) Não digo insubordinação como se ela, por si mesmo, trouxesse as respostas automaticamente. Mas, tem que haver uma insubordinação, primeiro, em termos do espírito, em termos daquilo que nós temos que não aceitar deste mundo e da explicação que se dá do mundo." (Mia Couto, escritor moçambicano).

“É preciso sair à rua, é preciso revoltarmo-nos, é precisa esta insubordinação (…) Ou nós vamos melhorar a miséria, ou nós vamos resolver o mundo, a nossa vida e a nossa esperança. Portanto, acho que não há outro caminho que não seja a insubordinação (…) Não digo insubordinação como se ela, por si mesmo, trouxesse as respostas automaticamente. Mas, tem que haver uma insubordinação, primeiro, em termos do espírito, em termos daquilo que nós temos que não aceitar deste mundo e da explicação que se dá do mundo.” (Mia Couto, escritor moçambicano).

A verdade é que não consigo agarrar esta energia de “seguir em frente”. Permaneço obstinada pela prepotente ilusão de poder (e de dever!) parar o mundo para consertar o curso da vida humana. Fico me lembrando dos ensinamentos budistas que explicam o nosso compromisso com a reencarnação: enquanto houver uma única alma sofrendo, voltamos para tentar amenizar a sua dor, até que todos tenham atingido a luz.

Trabalho de formiguinha, com certeza. De muitas vidas, de muitas almas, de muitas formas. A escolha e a decisão de sair do casulo e nos juntarmos a outras borboletas é individual, mas, de mãos dadas, vamos mais longe. Alguém disse que o momento é este. A nossa hora é esta. Precisamos exorcizar nosso egoísmo, nossas ganâncias e libertar a coragem da contraposição. É preciso indignar-se e aceitar o desafio da transmutação, mas com o coração aberto.

Existe um sino tocando, aclamando por um mundo capaz de transcender a própria miséria. Cada um de nós, mesmo que seja do seu jeito particular, pode estimular esta corrente a favor da espiritualidade comungada. O que precisamos é acelerar nosso passo para sincronizarmos o movimento.

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Uma resposta para Posto o desafio, por quê continuamos vivendo as contradições?

  1. Maryslaini disse:

    É interessante e ao mesmo tempo engraçado, como algumas mentes se sincronizam num mesmo modo de pensar, numa mesma necessidade, num mesmo ideal. Penso em como seria proveitoso se as mentes se reconhecessem assim para o bem. O dificil é saber que, ao contrário, algumas se reconhecem para o mal, justamente, para a ganância, para o egoísmo, enfim, a lei do bem e do mal. Talvez o mundo precisa ser assim, sei lá, mas eu agradeço por essas palavras que você expõe em seu “post”; estou feliz por perceber minha mente se “reconhecendo” plenamente com sua mente!!!

    gde abraço

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