Saudades da época que não vivi

Ontem fui assistir Faroeste Caboclo. Não tinha nenhuma expectativa sobre o filme e acabei me surpreendendo pela qualidade da produção e interpretação dos atores. O filme ficou super bem contextualizado e provoca uma nostalgia danada dos anos 70/80.

Todo mundo está sentindo e falando a mesma coisa. Mas, é fato! Até eu senti saudades de uma época que nem vivi. Não porque ainda não havia nascido. Simplesmente não tinha acordado para a vida. E, não, não estou me referindo às festas de “rockonha” que costumavam atrair os jovens nas noitadas.

Lá no interior, no meio da década de 70, estávamos dançando musica lenta na varanda de alguém. O máximo que fazíamos era quebrar a luz do poste instalado na frente de casa, esperando que ficasse mais escurinho para dançar de rosto colado. Ainda chamávamos isto de “brincadeira dançante” e estávamos mais concentrados em dominar nossos hormônios do que em fazer revolução.

Foi somente entre 75 e o início dos anos 80 que as coisas começaram a tomar outras proporções. Ainda assim, a consciência sobre a realidade era um projeto remoto, sem nenhum contorno político. Ao contrário daqueles que adolesceram no terror da ditadura, tínhamos referenciais mais aculturados. Portanto, éramos estranhos ao que se passava no país e no além das fronteiras do nosso clube social. Sim, naquela fase, não participávamos de redes sociais. Nós nos segregávamos em guetos.

Porém, tentávamos. Muitos de nós arriscavam uma contraversão, compondo músicas para os festivais (mesmo que fossem apenas canções de amor), lendo Dostoyevsky e Marx às escondidas, estudando para o vestibular de história ou de comunicação social, se interessando pelo antagonismo de classe. E, desta forma, delineando as primeiras noções sobre um mundo fora do banheiro da escola (onde muita informação era murmurada e a gente apreendia o inacessível).

Enquanto começávamos, finalmente, a dar sinais vitais para o mundo real, milhares de outros protagonistas já atuavam na linha de frente, tentando equilibrar as injustiças sociais (e humanas!). Alguns, por terem germinado suas lutas em solo conturbado, perderam a credibilidade ou foram vulgarizados. Outros, resistiram na contramão e abriram novos caminhos de contestação. O exercício da cidadania, do sentido político, ganhou força, embora ainda no anonimato.

Talvez fosse uma época vivida por pessoas que queriam fazer alguma coisa e que, mesmo individualmente, defendiam um projeto de sociedade mais equânime. Muita gente fez diferença. Não para a sociedade como um todo, mas para as pessoas mais próximas, instaurando uma espécie de “jornada do herói”, por onde outros seguiriam daí para frente.

Como qualquer ideia que “incomoda” é absorvida por um “poder maior”, muitas das nossas bandeiras acabaram sendo cooptadas por um processo de banalização total. O excesso de sátira e humor (quero dizer, pseudo-humor) é um exemplo. Aliás, que ainda persiste nos dias de hoje, haja visto o número de piadinhas de “caráter político” criado minutos após os fatos, nos levando a “curtir” a própria desgraça. Historietas, versinhos, tirinhas, musiquinhas, charges, esquetes, enfim… não que sejam deploráveis. Por um lado, elas nos divertem. Por outro, penso que acabam nos distraindo.

Está aí o grande desafio. Que não é exatamente “sumir com o governo”, mas se unir!!

Está aí o grande desafio. Que não é exatamente “sumir com o governo”, mas se unir!!

A questão é que, talvez, não saibamos mais nos mobilizar. Teve uma época em que os jovens se encontravam, na surdina, para debater sobre a realidade política e social do país. De uma maneira ou de outra, eles se rebelavam e se movimentavam, numa tentativa de contrapor a hegemonia vigente. Hoje, com toda “liberdade de expressão” que conquistamos, fico na dúvida sobre a nossa capacidade de oposição. Penso que essa mania de “tuitaço” e de outras redes sociais quaisquer, reforça um tanto a nossa indolência.

Há vários movimentos acontecendo na rede. Mas, me parecem virtuais demais para causar algum tipo de impacto concreto. Até almejam uma transformação, porém usam um meio bastante confortável e protegido para protestar. Convenhamos, a partir de um celular (que, vantajosamente, a grande maioria das pessoas tem acesso, nos dias de hoje) podemos nos inserir em qualquer movimento.

Não precisamos ir para as ruas, pintar a cara, se ariscar nas grandes marchas. Podemos simplesmente clicar alguns botões e pronto. Estamos dentro!! Estamos participando! Quase nem precisamos pensar muito sobre o assunto. Desconfio que muitos de nós fazem isto ligados no piloto automático!!

Também não estou dizendo que temos que quebrar a cara, incendiar ônibus, jogar pedra na Geni ou coisa que o valha. Eu sei. Os tempos são outros. Os recursos são outros. Mas, a política me parece a mesma velha de sempre e nossas estratégias, embora tenham mudado, não conseguiram transformar nossa realidade. Não precisamos mais do “milagre brasileiro”. Agora temos que dar um jeito de tirar os felicianos e os renans da vida das posições de grande importância. Eles não podem nos representar!!

943424_575693909142586_1405940428_nNão estou afirmando que nós não sabemos votar. Estou apenas suspeitando do nosso potencial contestador. Cadê o nosso talento para criar massa crítica? Será que perdemos a vocação? Saudades de um Chico que eu não ouço mais, de um Glauber que eu não assisto mais. Do concretismo de Augusto de Campos e de Décio Pignatari que eu não leio mais. Saudades da UNE que eu nem sei se ainda existe.

No faroeste o caboclo morre. Mas, ele já tinha morrido antes mesmo de levar um tiro. Eu não quero morrer no vácuo… e você?

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Uma resposta para Saudades da época que não vivi

  1. Severino Vasconcelos disse:

    Dra. Andréa, boas…

    Na minha época jogava-se outra coisa na Geni, KKKK! Como estudantes de História em Recife eu fui informado que estava sendo observado, foi máximo para meus medos. Depois cheguei a participar de passeatas contra Marco Maciel no centro de Recife, ele estava ministro da educação, e o grito de guerra era: fora Maciel, Maciel fora, fora Maciel tah chegando a tua hora… Que hora demorada! Ele era gato não gostava do dono, só gostava da casa… Ainda tivemos que aturá-lo por dois mandatos como vice de FHC e um mandato de senador, nunca pensei que fosse ter saudade dele contra o faroeste da deseducação de Lula… Bom, o faroeste pensado por Renato foi ditado de orelhão para a gravadora, para despistar da censura, esse fato se deu aqui em Brasília, eu ainda não vi o filme e quero ver para aludir meu pensamento… Valeu amiga foi um excelente texto. (Recomendo um filme de locadora, obra prima de Moore: “CAPITALISMO: UMA HISTÓRIA DE AMOR)
    Severino Vasconcelos – um amigo na Praça!

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