Síntese existencial

A ideia de que somos seres incompletos nos faz, com mais ou menos intensidade e propriedade (e sobriedade!), passar uma boa parte da nossa vida na busca de preencher os vazios que nos habitam. Desde pequenos criamos a ilusão de que, quando formos grandes, poderemos nos realizar.

Quando entrar na adolescência, poderei ganhar a chave de casa. Quando me tornar um jovem, poderei votar e até fazer uma faculdade. Depois que me formar, estarei pronto para começar minha carreira profissional. E sendo um bom profissional, com uma remuneração condizente, poderei constituir e manter uma família. Depois, é só esperar os netos chegarem.

295330_592948157396496_481990500_nBem, talvez estes não sejam mais os anseios das gerações contemporâneas. Mas, certamente, muitos de vocês se identificarão com estas promessas que vamos renovando no final de cada fase. E, claro, todos sabem que, em cada uma destas etapas, milhares de outras coisas vão sendo desejadas, enquanto aguardamos “ser grandes”.

Nosso ser parece inacabado, tão imperfeito e fragmentado que demanda uma série de correções e reorientações. E assim, vamos trilhando a vida, preocupados com aquilo que nos falta, com aquilo que nos “deixa a desejar” (em todos os sentidos!).

Poucos são os momentos em que paramos para consolidar nossa existência. Para juntar as peças do quebra-cabeça e olhar a grandeza do todo que formamos. Nossa atenção está na expectativa de ser. Ser completo, ser perfeito e cheio de luz. Como se isso garantisse colar os pedaços do Eu, outrora descolados do Sou.

Aprimorar a pessoa que somos parece natural. Acreditamos saber da nossa imperfeição. E, racionalmente, tentamos dar uma resposta para ela, buscando nos transformar numa pessoa melhor. É legitimo. Somos uma metamorfose ambulante, já cantava Raul Seixas. Instintivamente buscamos mudança e espontaneamente esperamos nos realizar com elas e/ou por meio delas.

O problema é quando esta busca se torna tão primordialmente o centro da nossa vida, que acabamos esquecendo daquilo que já É. Outro dia eu dizia a uma amiga que chega um momento da vida em que já fizemos tanto, já descobrimos tanto, que só fica faltando mesmo revelar-nos a nós mesmos.

armandinho e o céuE, está tudo certo! Quando a alma da gente se aquieta no fluxo, não significa o fim. Ao contrário. Passamos a colorir o céu com os recursos que já temos. Quer dizer, é nesse exato momento que começamos a viver a nossa verdade. Ou, por assim dizer, a verdade sobre nós mesmos. Isto provoca uma imensa leveza na nossa alma. Às vezes, quase insustentável, porque não conseguimos mudar o registro interno rapidamente.

Mas, quando o registro é atualizado, fazemos a síntese existencial!!

O que isto significa?! Um outro amigo me desafiou (mesmo sem saber… rsrs!) a trocar isto em miúdos. Bom, não consigo ser muito didática, nem muito objetiva. Então, abusando um pouco das metáforas, seria o mesmo que colar o preto no branco, a sombra na luz, o positivo no negativo. É colar o yin e o yang de todas as coisas, inclusive do Eu Sou.

183660_598213956869916_273394146_nÉ quando a gente cola todas as partes de si e se sente à vontade com aquilo que é mesmo. É quando a gente se olha por dentro, bem ali onde não nos imaginávamos antes e relaxamos, porque sabemos que somos. A partir desse momento, nos libertamos da busca e da expectativa de “ser grande”. Nos desconectamos do ordinário ao nosso redor e, finalmente, fazemos a conexão entre as partes que coabitam nosso ser. Integração plena!

A síntese, meu amigo, é isto. É a gente parar de achar que poderia ser melhor ou que poderia fazer melhor, simplesmente porque não importa o que esperamos encontrar lá na frente, o essencial já É dentro de nós. Mas, “não saberíamos se não tivéssemos tentado”.

Dias atrás, ouvi uma hipótese genial sobre o surgimento do mundo e Deus: ao invés de pensarmos que Deus criou o mundo, deveríamos entender que Ele se fez o mundo. Eu diria que esta é uma capacidade Divina de fazer a síntese para além do extraordinário da existência!

PS: na próxima vez, não vamos dizer “nesse mundão de Deus”. Podemos passar a dizer “nesse mundão que É Deus”. Amém!

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2 respostas para Síntese existencial

  1. Jackie disse:

    Essa síntese foi essencial…….adorei!

  2. Vera Moraes disse:

    não sei como cheguei….só sei que esse texto me completou!! bjaum!

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