Emprego ou trabalho?!

Há algum tempo venho refletindo sobre a prática profissional, tentando ponderar o dilema: melhor arrumar um emprego ou encontrar um trabalho? Muitas pessoas dizem que um implica no outro. Ou ainda, que as duas coisas são sinônimos. Não consigo pensar assim e contesto a postura “estou procurando um emprego”.

Indicado por uma amiga, encontrei no livro do Roman Krznaric (Como encontrar o trabalho da sua vida) algumas boas ideias sobre a trajetória do indivíduo no mundo do trabalho. De fato, trabalho não tem a ver com emprego, da mesma forma que um “bom emprego” não é, necessariamente, uma fonte de realização.

Todos podem ser grandes porque todos podem servir Martin Luther King

Todos podem ser grandes porque todos podem servir
Martin Luther King

Houve um tempo em que estávamos tão preocupados com o nosso sustento, com a formação de uma família e em corresponder às expectativas sociais, que procurávamos nos adaptar a qualquer situação e trabalho. A escolha profissional era resultante da pressão social e familiar. Por mais que os pais dessem liberdade para os filhos escolherem suas carreiras, as expectativas internalizadas eram muito determinantes.

A ideia de “vocação” como “algo para o qual nascemos” orientou a sociedade por muitas décadas. Satisfação no trabalho não era uma questão. O que imperava era a estabilidade (social e econômica) fruto da profissão escolhida. Aliás, optar por uma ou outra carreira não era tão complicado assim. Envolvia algumas contas de matemática e poucas áreas como alternativa.

Hoje lidamos com um leque muito variado de áreas e subáreas, o que tornou a escolha um processo bem mais sofisticado. Além do que, como afirma Krznaric, realização profissional é uma invenção da modernidade. Emprego vitalício e estabilidade cederam espaço para a busca de novos desafios, contratos de risco, trabalho temporário ou projetos de curto prazo.

Num mundo de transição em que o modelo mental vem mudando, aceitamos cada vez mais a multiplicidade do Ser. Estamos mais conscientes de que somos seres em metamorfose e se a velha guarda pregava “pensar para depois agir”, o labirinto em que vivemos hoje demanda experimentar!

Aquele que vive seguindo um "porquê" pode suportar qualquer "como". Friedrich Nietzsche

Aquele que vive seguindo um “porquê” pode suportar qualquer “como”.
Friedrich Nietzsche

Isso mesmo. Optar por uma carreira pode ser apenas parte da busca existencial. Passamos do racionalismo complexo para a simples experimentação da vida, rompendo com o clássico Descartes “cogito, ergo sum” (penso, logo existo), para o que Krznaric chama de “fluo, logo existo”.

Romper o paradigma de que um emprego é o cálice sagrado, que todo herói busca, é um bom início. Sair da zona de conforto, colocar a coragem a serviço da ação, atrever-se, dar ouvidos ao “chamado”, isso sim representa a busca pelo Santo Graal.

O que precisamos é encontrar ou definir uma missão/um propósito. É fundamental darmos um sentido para a nossa vida, pois é assim que nos realizamos. Mas, atenção: isso tudo é processual; acontece à medida do nosso desenvolvimento pessoal e existencial.

 

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6 respostas para Emprego ou trabalho?!

  1. Maria Luiza silveira disse:

    Excelente artigo. Concordo plenamente com você, um trabalho não é um emprego. O segundo é enfadonho e não acrescenta nada em nossas vidas; o primeiro nos dá realização e prazer,enchendo-nos de alegria.

  2. Juliana disse:

    Amei Andrea!

  3. Guilherme A. do Valle disse:

    Querida Andrea,
    Belo o projeto do blog, lhe parabenizo!
    Fazendo não sei se um contraponto, ou apenas colocando algumas questôes: Na prática considero bem mais complexa a questão de “colocar a coragem a serviço da ação”, Nem todo mundo tem condições para esta escolha, muitos precisam sobreviver! Conheço pessoas que foram contra a maré dos valores dominantes em nossa sociedade contemporanea e desistiram, para outros o preço foi ficando tão alto e outros elementos (familia,…) começaram a pesar, que tambem tiveram que desistir.
    Conheço pessoas que persistiram com seus sonhos e bandeiras, ate ve-los em frangalhos e amargar uma sensação de fracasso, mesmo podendo dizer para si “pelo menos tentei! pelo menos não fui omisso!” ouvindo a sua volta ” o que voce ganhou com isto! o que ficou de concreto? o que mudou de verdade?”
    Sim acredito que “o que precisamos é encontrar ou definir uma missão/um propósito. É fundamental darmos um sentido para a nossa vida, pois é assim que nos realizamos.” ! Mas não é tarefa facil em um mundo em que uns poucos se reunem e decidem: qual vai ser a cor da moda 2013/2014, que guerras vão ser iniciadas para aquecer o mercado da industria bélica, qual sera o aparelho eletrônica a ser consumido em massa no próximo ano, etc..Isto é, as pressões externas e culturais são enormes e a grande maioria delas não estimulam esta reflexão. Mas como voce disse, esta escolha é um processo, e digo, que esta surge e resurge com variadas caracteristicas nas várias etapas de uma vida, em meio a diferentes crises existenciais de uma encarnação e certamente entre as várias “encardenações”, que dizem ser necessárias para chegar a sabedoria, a iluminação, ou seja lá o que for!

    • Guilherme, voce me inspirou a escrever outro post, amigo… tá vendo como faz diferença na vida das pessoas!! Gratíssima pelo seu contraponto!! Abraço quentinho no coração.

      • Guilherme A. do Valle disse:

        Fico contente e feliz!, suas considerações em ambos os textos tem me feito refletir. Talvez uma saida para as minhas angústias de agora, seja renunciar aos grandes feitos sonhados e realizar algo ao nivel do micro, buscar a paz interior!
        Agora, por favor responda ao email que te enviei,ok!!

  4. Andrea, sinto-me uma felizarda! Hoje, na terceira idade, consigo aliar as duas coisas. Depois de muitas lutas, de muito suor e lágrimas, consigo trabalhar com alegria e realização em meu emprego. Admiração e carinho por você.

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