África, my heart e estereótipo do caos

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Ainda equacionando a experiência africana, é duro constatar que, realmente, esse povo é discriminado mesmo. Pior que latino quando chega aos Estados Unidos ou que brasileiro quando sai por aí.

Aliás, fazendo um parênteses, estamos em alta no globo turístico. Todo mundo se simpatiza com os futuros anfitriões da copa do mundo. Saímos da categoria tupiniquim do terceiro mundo há algum tempo, mas os dois grandes eventos que vamos sediar conseguiram projetar o país de maneira muito rápida e intensa. Por onde passamos, somos “bem recebidos”.

Não é o caso dos africanos. Na verdade, eles não tem tanta liberdade assim de ir e vir “por onde quiserem” (tudo bem, eu sei que ninguém tem essa liberdade!), nem  tanto dinheiro assim para viajar, nem tem tanta credibilidade assim.

A África parece boa para filmar pobreza, para testar medicamentos, para extrair diamantes brutos, para angariar fundos para projetos humanitários, para fazer rodar a engrenagem de algumas ONGs o terceiro setor. Africano parece bom para trabalhar na força bruta colonizadora.

Na hora de entrar em outro país, africano vira explorador de oportunidades (o interessante é que antes eram escravos!), imigrante ilegal (ou “sem documentação” como preferem os politicamente iludidos), traficante de drogas, prostituta. Tudo, menos turista.

Convidei dois amigos do projeto na Guiné para virem me visitar e conhecer um pouco do Brasil. Muito felizes, eles aceitaram na hora. Um deles nunca tinha saído do país antes. Seria um sonho se realizando. Mas, que virou pesadelo.

Para vir ao Brasil seria necessário fazer uma escala. A mais barata e rápida é pela Europa. Pesquisa aqui, pesquisa ali, e com a ajuda de uma agencia bem competente, verificamos algumas alternativas financeiramente mais interessantes: Paris (fora de cogitação, pois historicamente eles super dificultam os vistos para os africanos), Espanha (idem, mas com alguns atenuantes) e Portugal. Então pensei: bem, como eles já têm o visto brasileiro carimbado no passaporte e estarão apenas em “trânsito”, não vai ser complicado lidar com os nossos irmãos lusos. Então, compramos a passagem pela TAP.

Grande engano!! Eles tiveram que ir a Dakar para solicitar um visto na representação portuguesa lá (que, por sinal, de acordo com o que li na internet, está cheia de problemas de corrupção) e ainda por cima o pedido foi indeferido. Entraram com recurso, solicitando revisão e nada. Nem mesmo uma explicação para a dupla recusa do visto!! Nenhuma satisfação. Apenas um simples “não”! Conclusão: foi necessário cancelar a passagem com a TAP.

Agora resta ainda uma outra batalha: brigar com a TAP para conseguir o reembolso das passagens. A companhia alega que os bilhetes não eram reembolsáveis e quer, mediante uma multa, disponibilizar os mesmos trechos para os mesmos passageiros, no prazo de um ano.

Qual parte do eles tiveram o visto recusado a TAP não entendeu??? Ou seja, esses mesmos passageiros não poderão nunca viajar nesse mesmo trecho no prazo disponível. Isso não parece óbvio?! E ainda estamos adaptando nossa ortografia para ficarmos mais lusos. Meu Deus!!

Levantamos outras opções, embora financeiramente desvantajosas: África do Sul e Emirados Árabes Unidos. Optamos por Dubai (mesmo significando 10 horas de voo a mais), já que a companhia aérea oferecia o visto de trânsito como cortesia e a passagem era um pouco mais barata.

Por isso, voltei a pensar: esses árabes sim sabem fazer negócio! Vendem a passagem, mas garantem a satisfação do cliente de viajar com eles. Isso sim é inteligente e comercial! (desculpem… também sei reproduzir estereótipos!)

Felizmente, tudo correu super bem no trecho de vinda. Eles chegaram bem no Brasil, aproveitaram bastante as férias e se encantaram com as nossas maravilhas. Tudo compensou.

Infelizmente, o caos se reestabeleceu no trecho de volta. Me parece que em Dubai eles também adotam certos estereótipos. Meus amigos africanos foram classificados como suspeitos de tráfico de drogas. Tiveram suas malas revistadas (totalmente reviradas, diga-se a verdade), além de passarem horas sob forte interrogatório.  Até mesmo a medicação pessoal deles foi colocada em cheque. A dúvida era: o que um casal de africanos foi fazer no Brasil por duas semanas??

No fim deu tudo certo. Mas, em mim, ficou o sentimento de indignação pela humanidade. Quer dizer, pela enésima constatação de que, embora habitemos o mesmo planeta, não temos os mesmos direitos. A territorialidade é uma marca inconfundível da ganância pelo poder de uns sobre os outros. A estereotipia também!

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2 respostas para África, my heart e estereótipo do caos

  1. Ana Claudia disse:

    Andreita… como vc esquece do arqui inimigo tabaco na Africa?! é odioso o que fazem lá.. do plantio ao consumo de produtos. dá uma olhada no site: http://www.saveourfarmer.org/
    só para ter uma ideia………………
    agora, a parte da imigração, é isso mesmo!! Uma tortura. Vejo nos vôos como é o tratamento. A Emirates é ótima, mas o tratamento é bem diferente Rio – Dubai, uma graça.. Dubai – Johannesburgo, como eu fiz… nem te conto!! Até a aeronave era mais antiga, do tipo, não precisa se preocupar com “essa” clientela. mas, ainda assim, é melhor que as cias aereas europeias.
    Quanto à TAP, entra na Justiça direto! Vcs compraram a passagem pela internet??? O mundo virtual é de dfificil definição quanto ao foro, mas se foi vai agencia de turismo daqui, facil facil…
    E quanto ao Brasil: despontando numa completa ilusão. imagina um dia apenas de chuva no Rio já é uma desgraça!! todo mundo confia na sorte mesmo e no calor humano, no bom humor do brasileiro!
    Como estão dizendo por aí: O Papa é Argentino, mas Deus é brasileiro!!!

  2. dagmar duwe disse:

    Minha querida Andrea, compartilho com voc a indignao por tantas dificuldades criadas pela mediocridade humana.Quando a viso de simplicidade e amor ao prximo for prtica largamente adotada pela humanidade o mundo terreno ser suportvel.Bjs

    Date: Sat, 16 Mar 2013 14:32:29 +0000 To: dagduwe@hotmail.com

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