Minha equação africana

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De acordo com o Wikipédia, “resolver uma equação é encontrar todos os valores possíveis para a incógnita que tornem a igualdade verdadeira”. Pertinente para uma avaliação de causa e efeito.

Após dois meses em transição e em trânsito, rendo-me ao apelo e à necessidade de equacionar minha experiência na Guiné. Resisti até então, talvez para não ter que admitir o final dessa temporada africana. Sentia um aperto no coração toda vez que ensaiava olhar o caminho percorrido e que projetava na frente meu desligamento com o projeto e com a organização em que trabalhava.

Não é um sentimento desconhecido, claro. Mudanças e transições são parte integrante do meu caminhar. O aperto no coração a cada partida também!

No penúltimo dia, antes de voltar ao Brasil, passei por um livro cujo título, Équation Africaine (Equação Africana), chamou a minha atenção justamente pelo momento que vivia. Fiquei curiosa, mas como não conhecia o autor, não criei expectativas. Achei o título sugestivo e fui logo pensando: bem, essa pode ser uma ótima oportunidade para fazer a somatória.

Comecei a ler em doses homeopáticas. As semanas passaram e fui protelando a prova dos nove.

O livro foi escrito por Yasmina Khadra (que significa “jasmim verde”). Na verdade, o autor chama-se Mohammed Moulessehoul. Ele tem alguns livros já traduzidos no Brasil: O que o dia deve à noite; O atentado; As sirenes  de Bagdá; Cada dia é um milagre; O olimpo dos desventurados; As andorinhas de Cabul; O escritor; Com que sonham os lobos. Fica a dica!!

Khadra é um antigo oficial militar argeliano que se apresentou com o nome de uma mulher-flor para contornar a censura no seu país. Foi somente após partir em exílio na França que ele rompeu o anonimato. E a razão para essa reclusão é óbvia: a denúncia da violência na Argélia e em outros países africanos. Pelo que pesquisei sobre sua literatura, vale a pena se lançar nas suas histórias, pois todas elas, juntas ou isoladas, oferecem um excelente panorama sobre a situação política e religiosa do continente africano.

Mas, nessa equação, além de traçarem um pouco a lógica africana, seus personagens nos fazem refletir sobre o humanitarismo. Colocam em cheque nosso protagonismo social e nos convidam a repensar nossas estratégias para “salvar o mundo”.

O autor é claro: a África é muito mais do que as mulheres brutalmente circuncisadas, do que crianças injustamente morrendo de fome, do que as vítimas dos conflitos étnicos sangrando.  A África é muito mais do que toda a corrupção midiatizada, que gera no senso comum grande repulsa e faz todos nós pensarmos  num continente sem fronteiras, sem governança, sem ética.

A África é o colorido da alma negra. É a força dos braços que outrora construíram vários continentes e ergueram muitos países do outro lado do oceano. É o brilho explorado para enfeitar pescoços, dedos e orelhas brancas. É a fênix que ressurge eternamente das cinzas da pobreza desorganizada dos governos. É o tambor que soa a alegria.

Concordo que superestimar as riquezas naturais e culturais do continente africano seria o mesmo que tapar o sol com a peneira. Porém, reduzi-lo à miséria, é uma boa estratégia de marketing para tornar os projetos humanitários vendáveis, gerando recursos que mantém brancos no palco das intervenções.

Nesse caso, tornar a igualdade verdadeira, significa romper com essa visão ingênua de que é a África que necessita de nós. É uma equação muito pertinente, considerando minha experiência organizacional e guineana: um misto de decepção e realização; de basta com está apenas começando; de amor e desamor; de desilusão e esperança.

Mas, não dá para falar de tudo isso num único post… eu volto, mesmo que comendo o mingau pelas bordas!

yasmina-khadra

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2 respostas para Minha equação africana

  1. Dagmar Duwe Gevaerd disse:

    Andrea querida,teu texto deixou-me mexida! Muito a conhecer e muito a pensar: vida, diversidade, preconceito, espiritualidade…..

  2. Sonia disse:

    Volte logo, nao demore para continuar a ” pintar” td esta beleza. Bjs

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