Desconhecido, incerto ou familiar?

 

Poderia iniciar esse texto tentando responder, para mim mesma, a pergunta em questão. O desconhecido é aquilo que brota da ignorância, da falta de experiência, da visão limitada. Representa a nuvem turva que, impedindo o sol de brilhar, provoca uma grande sombra natural sobre o nosso caminho.

 

O desconhecido se apresenta sob a forma de medo, de resistência, de atraso, de paralisia. Faz o corpo tremer e a alma acovardar-se. Aprisiona nosso ser dentro de uma caverna onde, iludidos, acreditamos nos proteger e nos agarramos ao familiar.

 

Geralmente, o desconhecido perdura. Ou melhor, dura tempo demais. O suficiente para fazer estragos, muitas vezes, irreparáveis. Compromete nossas ações, freia nosso desenvolvimento e também nos faz persistir no erro. O desconhecido é o que nos mantém na zona de conforto; é o travesseiro do dogma sobre o qual repousamos nossa intelectualidade e fazemos dormir a irreverência.

 

Nos entregamos ao desconhecido com a desculpa de nos adaptarmos, de respeitar nossos limites e de aceitar as fronteiras da sociedade. E a cada ator que levanta no palco e tenta alargar o horizonte, dirigimos nosso olhar crítico e o condenamos: como ousa romper nossa ignorância e ameaçar nossa estabilidade?

 

Pelo menos no desconhecido sabemos. Pelo menos no desconhecido garantimos um lugar. Pelo menos no desconhecido conseguimos dar nome as nossas angústias.

 

Mas, espera aí… no desconhecido ou no familiar??!! O que nos bloqueia é saber ou o não saber? Por um momento pensei que o conhecido e o desconhecido podem desempenhar o mesmo papel. Como duas faces de uma moeda que tem o mesmo valor. Paga-se com ela o preço da ignorância da alma.

 

Às vezes, tenho a impressão de que o sofrimento maior é nos darmos conta de que, na verdade, o desconhecido é o familiar; aquilo que sempre nos habitou e aquilo do qual desviamos nosso olhar cotidianamente.

 

Como disse a uma amiga um dia, a travessia não é nada fácil e as ondas que batem contra o nosso barquinho, muitas vezes, ameaçam virar tudo de cabeça para baixo. Achamos que vamos naufragar e entramos em pânico porque não sabemos o que vai acontecer ao certo.

 

Penso que o medo diante do desconhecido se estabelece, sobretudo porque acreditamos na nossa ignorância. Se ao menos reconhecêssemos que podemos ir além da matéria, não aprisionaríamos nossa visão e as noites escuras da alma dariam lugar para a luz divina. Saberíamos, com a sabedoria do coração, que a fome não atinge o espírito se ele estiver preparado para libertar-se do incerto.

 

Poderia concluir, provisoriamente, esse texto me colocando a pensar no desconhecido como familiar e no familiar como incerto. Sem jogo de palavras.

 

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Uma resposta para Desconhecido, incerto ou familiar?

  1. Severino Vasconcelos disse:

    Dra. Andréa, Boas…

    Amei seu texto, que para mim não foi tão desconhecido assim, isso enquanto ideia muito bem bolada por uma pessoa que conhece bastante das mazelas humana. Eu tenho travado uma batalha com o novo, ele não me vence, mas o meu espírito é muito resistente a ele… “Penso que o medo diante do desconhecido se estabelece sobretudo porque acreditamos na nossa ignorância…” Permita-me discordar deste trecho do seu científico documento, a ignorância por si só pode dominar, mas não deve vencer…

    Abraços,

    Severino Vasconcelos

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