Um pouco de toc não faz mal a ninguém

 

Temporada de chuva. Muita chuva. Chuva todos os dias em abundância e constância! Chuva de fazer a gente virar sapo. Sobretudo, chuva de cólera!

 

A cidade se transforma em pequenas piscinas. Botas impermeáveis (tipo sete léguas) é a única maneira de não encharcar os pés. Um lamaceiro geral que propaga o odor do lixo e do esgoto aberto, repugnando até mesmo os narizes locais.

 

Simultaneamente em que o caos no trânsito aumenta, uma grande epidemia de cólera começa a tomar conta da cidade. Em apenas uma semana, os casos aumentaram significativamente. Antes eram no máximo 7 e agora já somam mais de 40 por dia.

 

Nada comparado a Serra Leoa, país vizinho que acumula 200 casos por dia, ou outros países da África que sofrem com o mesmo mal, mas igualmente assustador. Os hospitais designados para tratar os pacientes com cólera já estão lotados. Um grande centro foi montado sobre tendas, com capacidade para 60 leitos. Tudo lotado. A expectativa é de que a contenção do surto vai levar tempo. Algumas vítimas fatais, certamente. Não é possível salvar a todos!

 

O pior do cenário é constatar que, se as grandes agências e ONGs internacionais não se mobilizam, os governos locais não dão conta de reverter a situação. Pior, mas pelo menos é um recurso que rapidamente se coloca à disposição da população.

 

Protegida do cólera por uma questão lógica (muito toc com a higiene!!), sou, entretanto, afetada por um outro tipo de cólera: a indignação contra o nosso próprio descaso. Luto contra as duas pontas da faca. De um lado a negligência pessoal, de outro a negligência coletiva.

 

Pelo que consta, todo ano tem epidemia de cólera por aqui. Ou seja, é uma guerra familiar e esperada; com data sempre marcada para a temporada de chuva. Então, não dá para aceitar esse tipo de batalha. Sabendo de todos os riscos que a população corre por falta de saneamento básico, não era o caso de se engendrar uma grande empreitada para limpar a cidade e ensinar a população a se limpar?!!

 

Quantos cóleras são necessários para que as pessoas adotem medidas simples de gestão da higiene? Não é o caso de culpar ninguém, mas de responsabilizar todos os cidadãos. Mesmo onde não tem coleta de lixo, as pessoas podem ter higiene! O problema não é do governo. A implicação é de todos nós!

 

Me lembro de uma querida companheira de trabalho que dizia que “quem faz a favela é o favelado”. Concordo. A transmissão do vibrio colérico é fecal-oral. Depende da higiene pessoal, sobretudo.

 

Desculpem o desabafo… mas, um pouco de toc não faz mal. Lavemos nossas mãos quinhentas mil vezes por dia, mas não lavemos as mãos frente ao descaso geral!! Falta toc humanitário, falta toc solidário, falta toc na nossa consciência coletiva!!

 

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Uma resposta para Um pouco de toc não faz mal a ninguém

  1. Maryslaini disse:

    Compartilho da mesma opinião, e esse ” toc ” infelizmente é algo que faz parte muito de nosso dia a dia aqui tb no Brasil , aliás, até mesmo em minha cidade .
    Parabéns pelo artigo e pelo desabafo, a diferença esta exatamente nisso, em cada um ter a conciência de fazer fazer sua parte !

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