Um jardim secreto

 

Ainda debruçada sobre as verdades de Jacques Salomé, reflito sobre sua ideia de que “nem tudo precisa ser revelado. Todo mundo deve cultivar um jardim secreto.” Para ele, a intimidade pessoal é um espaço sagrado do indivíduo, que deve ser tolerado e respeitado.

 

Já para mim, não tenho muita certeza sobre a possibilidade de mantermos um jardim secreto. Tolerar e respeitar a intimidade do outro, reconhecermos e compreendermos as fronteiras que delineiam a individualidade do outro, isso sim não me parece ser uma atitude difícil, mesmo em tempos de reality show. Basta desligar a televisão, basta silenciar as perguntas, basta se retirar um pouco do grupo ou então permanecer no banco de reserva, à espera de ser convidado para a intimidade alheia.

 

O que me parece difícil mesmo é cercar nosso jardim, já que o perfume das flores transpassa as barreiras.

 

Por mais contraditório que possa parecer, concordo com a ideia de que nem tudo precisa ser revelado. Mas, há momentos em que o particular e o privado ganham um novo sentido e que suas fronteiras são difíceis de serem estabelecidas. Talvez, numa outra perspectiva, poderíamos dizer que, quando somos fiéis ao nosso mundo interno e vivemos sobre a tutela da nossa ética humana, a transparência do que somos, como pensamos, o que sentimos, no que acreditamos, revelam o perfume das flores em nossas ações diárias. Mesmo num jardim secreto, nesse caso, a possibilidade de “proteger” a intimidade pode ser questionada.

 

Que existam caraminholas no nosso jardim com as quais acreditamos conviver em absoluto segredo, posso até concordar. É fato. Tem coisas que a gente pensa sozinho, lá no íntimo de nós mesmos. Mas, se pensamento é energia que vaga por aí, fazendo sinapses com outros pensamentos, então fica difícil guardar o jardim em segredo. Logo alguém nos descobre e nossa intimidade é des…coberta.

 

Por isso, coloco-me a pensar que, se existe alguma “coisa” que não possa ser revelada para o outro, essa “coisa” também não pode ser revelada para nós mesmos, pois não conseguiremos mantê-la na intimidade. Lembremos: quantas “coisas” ignoramos sobre nós mesmos que são, de alguma maneira, verdades apreendidas pelo outro, sem que tenhamos dito uma só palavra.

 

Às vezes, nos retiramos de cena com uma xícara de chá e um bom livro ou nos escondemos do mundo, numa tarde chuvosa, para estarmos com a gente mesmo. Choramos embaixo do chuveiro para ninguém descobrir a nossa dor. Maquiamos as olheiras para ninguém descobrir a nossa fadiga. Estampamos um sorriso no rosto para ninguém descobrir a nossa tristeza. Falamos pelos cotovelos para ninguém descobrir a nossa solidão. Falamos com firmeza para ninguém descobrir nossa impotência. Reforçamos nossas redes sociais para ninguém descobrir nosso sentimento de rejeição. Vamos logo dizendo quem somos para ninguém des…cobrir nossa intimidade.

 

E assim vamos, acreditando nos roseirais secretos do nosso jardim e esquecendo que basta um olhar profundo nos olhos para que o todo de nós mesmos seja capturado. Às vezes, nem mesmo isso. Existem aqueles jardineiros que, com a força do próprio pensamento, transpassam a cerca sem precisar pedir licença.

 

Segredos de liquidificador, diria Cazuza, talvez…

 

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