Quando peço que me escute, por Jacques Salomé

Aos que defendem os direitos autorais peço mil desculpas, mas não dá para não reproduzir aqui um texto belíssimo do Jacques Salomé. Psicólogo e sociólogo francês, considerado o “escritor da ternura”, ele descreve com sabedoria o pedido da nossa alma. Fiz uma tentativa de traduzir o texto para o português, mas não tenho certeza de que consegui chegar a um consenso linguístico perfeito. De qualquer forma, é emocionante. Apreciem…

Quando peço que me escute e você começa a me dar conselhos, sinto que não sou escutado.

Quando peço que me escute e você me faz perguntas sobre o que eu deveria ou não sentir, me sinto agredido.

Quando peço que me escute e você apreende o que eu digo para tentar resolver o que você acredita ser meu problema, por mais estranho que possa parecer, me sinto ainda mais perdido.

Quando peço que me escute, peço para que você esteja lá, presente nesse instante tão frágil em que procuro a mim mesmo, numa palavra errada, às vezes, inquietante, injusta ou caótica.

Preciso dos seus ouvidos, da sua tolerância, da sua paciência para me dizer o que é difícil ou o que é mais tranqüilo.

Sim, simplesmente me escutar… sem acusação, sem desqualificação da minha palavra.

Escuta, escuta-me.

Tudo o que peço é que você me escute.

O mais próximo de mim.

Simplesmente acolha o que tento te dizer, o que tento dizer a mim mesmo.

Não me interrompa no meu murmurar; não tenha receio das minhas tentativas e erros.

Minhas contradições assim como minhas acusações, por mais injustas que pareçam, são importantes para mim.

Eu chego, dessa forma, a um discurso claro que, há tempo, me encontro desprovido.

Oh, não! Não preciso dos seus conselhos.

Posso agir sozinho e também me enganar.

Não sou impotente; às vezes necessitado, desencorajado, hesitante, nem sempre importante.

Se você quiser fazer no meu lugar, irá contribuir para o meu medo, para acentuar minha inadequação e, talvez, para reforçar minha dependência.

Quando eu me sinto escutado, eu posso enfim me ouvir.

Estabelecer as pontes, as passarelas incertas entre a minha história e as minhas estórias.

Religar os eventos, as situações, os encontros ou as emoções para fazer a trama das minhas interrogações.

Para tecer, dessa forma, a escuta da minha vida.

Sim, sua escuta é emocionante.

Por favor, escuta-me e ouça-me.

E se você, por sua vez, quiser falar, espera só um instante para que eu possa terminar e eu, por minha vez,  te escutarei melhor, sobretudo se eu tiver me sentido entendido.

(Quand je te demande de m’écouter…, texto extraído de Parles-moi, j’ai des choses à te dire…)

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4 respostas para Quando peço que me escute, por Jacques Salomé

  1. Marta rosani Farina disse:

    Oi Andrea
    Que texto! Sensível e pertinente, adorei e já compartilhei com meus companheiros de voluntariado. Obrigada por dividir comigo sua sensibilidade.

  2. Dione Menz disse:

    Querida Andrea,
    Já havia lido partes, mas agora tenho o poema todo!
    Vou trabalhar na próxima semana quando estiver com os Agentes comunitários que estamos formando na UFPR.
    Faremos um bom grupo de reflexão sobre a temática da escuta… tanto falamos sobre ela…tão pouco nos silenciamos para a elaborarmos.
    Bjs

  3. Andrea querida, obrigada por me passar uma amostra, grande amosta sobre a psicolgia da ternura.Lindo!!!!!!!!!!!!!. Um abraço bem apertado da Dag.

  4. Severino Vasconcelos disse:

    Dra. Andréa, que maravilha de texto!

    Essa pérola deve ser uma espécie de texto mãe para o psicólogo… Vc tem muita razão qdo disse que nessa hora não vale direito autorais, eu me sentiria ofendido se não tivesse lido… De coração obrigado! Foi por não ser ouvido que sai da ordem…
    Abraços
    SJ

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