Contagem progressiva

Brincando com fogo – Max (expatriado)

 

Dia 11 fez dois meses que estou em Conakry. Ponderando sobre o meu processo de adaptação, parece que cheguei faz tempo.  É incrível como o corpo da gente se adapta fácil; num instante a mente passa a operar um outro “código Morse” e tudo se torna familiar. O esforço para ler a legenda do filme que é a vida no dia-a-dia se minimiza e a língua começa a habitar até mesmo os sonhos.

 

Provavelmente são as impressões carmicas que, registradas em nossas moléculas transcendentais, nos fazem reconectar com um mundo nada estranho, nada estrangeiro. Um mundo que já existia dentro de nós e pulsava latente, esperando a hora de vir à tona.

 

Às vezes isso até assusta, pois dá a sensação de que o antes não existia e o que está sendo agora é o que sempre foi. É óbvio que a nostalgia do passado mais recente se impõe rotineiramente, mas os novos hábitos e novos signos vão preenchendo determinadas lacunas e fazendo com que a gente perca, aos poucos, a referência do anterior.

 

Por um lado isso é bastante saudável, já que nos permite ir-e-vir, ir-e-ficar, circular-e-estabilizar de maneira tranquila e serena. Simplesmente acolhendo a vida como ela se apresenta no exato momento e saboreando todos os sabores que ela oferece, seja doce ou amargo.  O desapego assegura essa transição e fortalece a ousadia. Abre horizontes e convida a gente para novas experiências.

 

Mas, de novo assusta, à medida em que, presentes no aqui-e-agora, trabalhamos nossa identidade e criamos um movimento intenso de questionamentos dentro da alma. O clássico conjunto de perguntas: de onde vim? Onde estou? Para onde vou? Quem sou?

 

Lembro-me do último dia do retiro de “silêncio nobre” que fiz no Tushita Center, quando estive na Índia. Depois de dez dias sem conversar, estava ávida por um papo amigo. Me sentei frente a uma pessoa na hora do almoço e, tentando dialogar, perguntei de onde ela era. Rapidamente ela disse que seria difícil responder isso. Acreditando, inocentemente, que talvez eu tivesse formulado mal a frase, recompus o meu inglês, perguntando de onde ela vinha. Intacta, ela se manteve reticente, dizendo que era uma pergunta um tanto complexa. Intrigada, com aquela situação, fiz questão de insistir mais um pouco, perguntando onde ela esteve antes de estar ali. Foi justamente aí que a conversa desandou de vez e, finalmente, desisti achando que era muita transcendência para uma mesma refeição. Preferi prolongar meu silêncio mais alguns minutos.

 

Distante desse dia, mas imersa no mesmo turbilhão de perguntas, reconheço que o pano de fundo daquele “diálogo” faz todo sentido do mundo. Apenas não era exatamente o que eu esperava naquele momento. Porém, a “verdade” é exatamente a mesma. É complexo falar de uma origem quando a pluralidade dos mundos coabita nossa existência.

 

Aqui-e-agora sinto que poderia estar em qualquer lugar do mundo (talvez do universo), fazendo o que quer que fosse, interagindo com quem quer que seja. A inteireza do ser permanece intacta e a conexão com o Mundo Maior afinada. Daí a contagem progressiva para concretizar desejos, sonhos, projetos. Um dia por vez. Várias vezes por dia.

 

Daqui, desse pequeno ponto do planeta, uma vida pulsa alegremente, enquanto a Terra gira e o tempo passa depressa. Faço um pequeno esforço para manter o fio de prata ligado ao outro lado do mundo.

 

Brincando com fogo – Max (expatriado)

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2 respostas para Contagem progressiva

  1. Ana Claudia disse:

    O paragrafo sobre a sua experiencia na India me fez viajar justamente para quando nos conhecemos… posso até visualizar a situação…. até acredito no seu compromisso em ficar em silencio por 10 dias, mas tb sei exatamente da sua vontade de engatar um bom papo… aí não consegui segurar a gargalhada com a descrição do almoço!!!

  2. Severino Vasconcelos disse:

    Dra Andréa, boas…
    Outro dia, “en passant ” vc falou algo comigo, quando lhe mandei o Hino Nacional… Confesso que sou muito “verde-amarelo”, apesar de de ter bom conhecimento sobre vidas passas… Vc sabe que sou uma pessoa muito simples e nunca tive oportunidade de viajar pra fora, o Brasil eu conheço muitos lugares, especialmente do Nordeste – Cangaceiros & Fanáticos -. Bom, mas o que isso tem a ver com sua postagem atual? Eu entendo seu modus de ver a vida, mas eu ainda sou muito ligado ao meu torrão, isso não impede que eu tenha vontade de conhecer, eu acredito que a pessoa aculturada tem mais oportunidade de vender seu peixe… Quanto aos dois meses, realmente o tempo não está brincando, algo se move em direção da passagem do espírito aqui no Planeta, os motivos para mim não são claros, mas eu penso em mudanças de comportamento.
    Saudades,
    SJ

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