Quem não comunica…

chacrinha0Garanto que todo mundo consegue completar essa frase. Talvez mesmo aqueles que são de uma geração distante das tardes de domingo recheadas de “alô Teresinha”, chacretes e Elke Maravilha, possam rapidamente inferir o que vem na frente desse axioma.

Expressão do nosso saudoso (?!) Chacrinha que, sabiamente, reforçava a necessidade de nos comunicarmos. Mas, será que ele também imaginava a complexidade da comunicação num país que convive com mais de 30 dialetos e ainda por cima tem uma língua oficial imposta por colonizadores?

A cada dia que passo aqui em Conakry observo outras nuances sobre a maneira das pessoas interagirem. Não creio que a comunicação seja um desafio apenas para os guineenses. Entre nós, expatriados, também existem códigos e sinais que devem ser decifrados à luz da compreensão de que temos nacionalidades diferentes, culturas diversas, profissões e experiências de vidas variadas.

chacrinha4Além de levar em conta a maneira como cada um se expressa, em função das suas características individuais, a língua e a linguagem desempenham um papel ainda mais intrigante na forma como as relações se estabelecem entre nós, entre nós e os guineenses, entre os guineenses, entre todos os atores e os objetivos do projeto.

Se a comunicação é uma via de mão dupla, por aqui o caminho é cheio de bifurcações ou, no mínimo, uma via de mão tripla: o que se fala, o que se entende e o que se faz! Nada é muito simples. Parece que quase tudo tem que ser dito e redito, confirmado e reconfirmado, para que possamos realmente apreender o que está se passando. Mesmo assim, os ruídos e os interditos fazem um estrago considerável. Os exemplos são inúmeros, mas reconto apenas “um causo” para ilustrar:

chacrinha3Na semana passada, participei de uma reunião com aproximadamente 25 pessoas (sim, reunião de trabalho com 25 pessoas!), que deveria tratar de assuntos importantes (afinal é para isso que servem as reuniões de trabalho), numa sala quente e pequena (que não dava nem para todo mundo sentar direito). Entretanto, no mesmo dia e no mesmo horário, estavam realizando no pátio da unidade de saúde um evento de sensibilização sobre a discriminação das pessoas que vivem com o HIV/AIDS. Era uma apresentação de música e malabarismos com tambores (lembram do vídeozinho de uns posts atrás… então, era aquela apresentação), seguida de uma peça de teatro. Tudo bem difundido com um sistema de som ensurdecedor.

Ainda que estivéssemos numa sala fechada e quase gritando o conteúdo da reunião, eu mal podia ouvir o que as pessoas falavam. Mas, em algum momento, foi discutida a falta de higiene nas unidades de saúde, sendo ressaltada a importância da supervisão mais rigorosa dos procedimentos internos. Todos os participantes tinham o semblante de bem compreender o que estava sendo solicitado.

chacrinha2Até que, no final da reunião, foi oferecido um lanchinho para os participantes: refrigerante e um empanado de frango. Esse último, servido diretamente de uma sacola plástica (dessas que no Brasil a gente usa no supermercado) e sem guardanapo. As pessoas pegavam com a mão… sim, a mesma mão que no início da reunião cumprimentava outras mãos e durante as 2 horas de blá-blá-blá manuseava caneta, papel, etc., etc.! Os mais famintos aproveitavam para ir logo pegando dois salgados e enquanto comiam o primeiro, acomodavam o segundo sobre a mesa (sim, diretamente sobre a mesa!).

Será que todo mundo entendeu bem o recado sobre cuidar da higiene básica das unidades de saúde? E será que quem deu o recado (as mesmas pessoas que serviram o salgado sem guardanapo) entende realmente do recado?

Por aqui, a impressão que eu tenho é que nem sempre as pessoas compreendem o que está sendo falado. A dúvida é se isso ocorre talvez por falta de domínio da língua (dada a variedade de línguas que se fala por aqui) ou por não estarem familiarizadas com o que está sendo dito (tendo em vista a falta de acesso à informação específica).  Parece que, entre o locutor e o interlocutor, a informação viaja por túnel que a transforma.

chacrinha1Talvez por timidez ou por vergonha de reconhecer que não entenderam o que foi dito, as pessoas tomam como certo determinadas informações e não questionam o seu conteúdo. Por outro lado, penso que o paradoxo, entre o que se fala e o que se faz, acaba deixando dúvidas (que ninguém pede para esclarecer) ou banalizando a informação (e aí ninguém segue mesmo o que está sendo dito).

Mas, há quem desconfie de que, no fim, todo mundo entende tudo, mas finge que não entendeu exatamente e faz o que bem entende…. entenderam??!!

Para o nosso caso aqui, provavelmente, a frase do Chacrinha poderia ser elaborada da seguinte forma: “quem não se comunica com firmeza, se estrumbica!”

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