Caminho Inca: despedida e desafio

Ainda no trem de volta a Cuzco, observo as montanhas pela janela e me pergunto se, de fato, percorri tudo aquilo a pé. Instantaneamente, as articulações dos joelhos respondem que sim. Os músculos das coxas reforçam o coro e exigem reconhecimento imediato. Está bem; é hora do balanço geral!

O que essa experiência significou para mim?!
Além de ter sido a realização de um desejo que me provocava há nove anos, a viagem foi uma espécie de despedida e de desafio.
No primeiro caso, como partirei em missão com os Médicos Sem Fronteiras na África, queria muito fazer uma viagem anterior que marcasse essa passagem.

Nada melhor do que atravessar o caminho dos Incas e enfrentar as adversidades das montanhas: inclinações e abismos (ora à direita, ora à esquerda), falta de ar (por causa da altitude), excesso de ar (por causa dos fortes ventos), frio (por fora) e calor (por dentro), esforço físico… Acho que deu para compor o cenário, não é mesmo?!
Mas, tudo isso foi amenizado com a excelente companhia do grupo (em especial do meu filho Pablo!), a boa comida do acampamento, roupas e tênis confortáveis, inúmeras aplicações de salompas nos joelhos e pernas, no final do dia, apoiadores (cajados) alugados, balas de coca, chá de coca e folhas de coca para mascar. Não!!! Nada disso é droga!!! Nem vicia!!! A coca usada nesse caso é a planta natural, que serve apenas para amenizar os efeitos colaterais da altitude e do cansaço, em função das suas propriedades medicinais. Entenderam bem isso?!?!

Particularmente, não tinha nenhuma experiência em escalar montanhas. Sendo assim, esse foi um ritual de passagem e tanto! Comparando com tudo que já fiz na vida, nenhuma outra situação que exigisse esforço físico foi tão complexa como vencer essa trilha. Por isso, está marcada a despedida de uma fase tranquila da vida, com esforços mínimos. Que venha do mundo o que tiver que vir!

No caso do desafio, mesmo tendo subestimado a carta geográfica (rs!!), já imaginava que a experiência demandaria uma postura de constante superação. Esperava mobilizar dentro de mim sentimentos intensos (e tensos!). e assim foi, por 72 longas horas.
Tive que encarar o cansaço físico e encontrar forças para dar todos os passos necessários (aproveitei para meditar e alinhar a mente com o corpo). Tive que encarar o medo de altura e encontrar coragem para olhar todos os abismos do horizonte que se abriam entre as montanhas (aproveitei para olhar os abismos de dentro também). Tive que encarar a minha arrogância de achar que dava conta de trilhar esse caminho e encontrar humildade para admitir que ultrapassei meu limite (aproveitei para esticar um pouco mais o limiar de dor e de tolerância).

Na véspera de começar a viagem recebi pelo email uma mensagem que listava algumas verdades sobre a vida. Uma delas dizia para não confundirmos a vontade de Deus com a Sua permissão. Bem, isso não saiu da minha cabeça e durante os momentos mais desesperadores da trilha, eu me repetia incansavelmente: okay! Já entendi o recado. Mas, por favor, meu Deus, permita que eu chegue inteira no destino final!
Faltaram contas no meu japamala (sabem… aquele “terço” tibetano usado para repetir os mantras) imaginário para contabilizar as centenas de orações que eu mentalizava, implorando forças e coragem. Ainda bem que Deus sentiu vontade de me dar mais uma chance… que lição… que lição!!

O caminho nos leva ao limite de nós mesmos. Bem ali, onde você pensa que o próximo passo é o último, mas que, na verdade, é apenas o primeiro degrau da escada. E você nem imaginava que existia uma escada.
O caminho ensina que, no desespero, a gente não pode nada, não pensa nada, não encontra nada, não nada… afunda.

Então o caminho mostra caminhos para transmutar o desespero em sabedoria e aí você passa a escolher melhor onde colocar os pés, quando parar para descansar e retomar o fôlego.
Noves fora, retalhos de despedida e de desafio teceram uma colcha de lições sobre como é bom viver na tutela Divina.

Anúncios
Esse post foi publicado em Meditando e marcado , . Guardar link permanente.

3 respostas para Caminho Inca: despedida e desafio

  1. Severino de Vasconcerlos Andrade disse:

    Oi…. Que maravilha! Sua narrativa me levou ao local, eu perdi a respiração só de pensar. Minhas experiências com os incas: 1. O livro “Profecias Celestinas”; 2. Uma narrativa como a sua, mostrando as encostas, os espaços apertados, as ladeiras inglimes, eu amei a reportagem feita por uma TV a cabo que mostrou sua narrativa com imagem. Mas hoje eu recebi esta narrativa de uma pessoa que vive com alma de aventura do mundo espiritual, aqui faço uma estação para te perguntar: Deu pra voccê perceber como já tivemos ‘gente grande’ no planeta? Eu sou apaixonado pelos Incas, pelos Maias, pelos Astecas, eu sou uma pessoa que ama a LUZ, e você transmite LUZ para seus amigos, obrigado!
    Severino José
    (Um amigo na praça!)

  2. Ana Claudia disse:

    Fantastica experiência Andrea. Pronta para a nova fase. Foi um verdadeiro batismo e um grande aprendizado!!! Boa sorte e um forte abraço!! Bjs

  3. Maria Luíza disse:

    Seus relatos sobre a caminhada são tão reais que nós também viajamos com vócê, tendo as
    mesmas sensações. Parece uma peregrinação bem sofrida, que só consegue vencer quem tem
    preparo físico e espiritual e só aproveita com tanta intensidade quem traçou uma meta antes
    da partida. Garra , tenacidade, organização,metas, espiritualidade e fé são marcas de seu ca-
    ráter,porisso eu nunca duvidei que você chegaria ao final, com muito êxito.Parabéns.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s