Sobre essa coisa de ser livre

Encarregada de presentear seus amigos com uma mensagem, a convidada escolheu a lenda dos índios Sioux, que narra a história do Touro Bravo e da Nuvem Azul. O casal apaixonado pede ao velho feiticeiro da tribo alguma coisa que possa garantir que fiquem juntos para sempre.

O sábio, então, dá a eles a tarefa de buscarem, num lugar longínquo, a mais brava águia e o mais vigoroso falcão. Quando retornam à tenda do feiticeiro com a tarefa cumprida, o velho pede que eles amarrem as aves pelos pés, com uma fita de couro. Depois orienta que elas sejam soltas para voarem livremente.

As aves, amarradas firmemente, fazem diversas tentativas de alçar vôo, sem sucesso.

Conseguem apenas saltar e de um lado para o outro, sem decolar do chão. Ficam irritadas uma com a outra e passam a se bicar, machucando-se mutuamente.

IFÉ quando intervém o sábio feiticeiro, estabelecendo uma analogia com o casal que o procurara. Explica a eles que, mesmo por amor, quando nos amarramos um ao outro, acabamos nos arrastando vida afora e, cedo ou tarde, passamos também a nos machucar.

De fato, ao nos apegarmos às pessoas, às coisas, aos costumes e crenças, fazemos com que as cobranças por aquilo que desejávamos tomem o lugar da aceitação por aquilo que o outro é. As frustrações, geradas pelos objetivos não alcançados, substituem a determinação de caminhar e crescer. A sombra das nossas projeções domina o horizonte e já não conseguimos mais enxergar nem a nós mesmos. Confundimos o outro e as coisas com aquilo que somos; depositamos no mundo externo a responsabilidade de nos fazer feliz. Perdemos de vista o brilho da alma, e o sentido da nossa passagem pela vida terrena fica turvo.

falcao-aguiaA liberdade, que nos faz sobrevoar as colinas da vida, permite uma visão equidistante e imparcial dos obstáculos. Estimula a tomada de consciência e apoia a nossa independência afetiva. Ao nos distanciarmos dela, corremos o risco de nos perdermos. Mesmo que por amor ao outro ou por nos sentirmos confortáveis o suficiente nas situações em que nos encontramos, temos que lutar para não sucumbir diante da ínfima possibilidade do aprisionamento.

A experiência de ser quem realmente somos é uma conquista sem precedentes. E cada pessoa volta a si mesmo em algum momento, de alguma vida, mesmo vivendo processos coletivos ou conjugais. Talvez seja nos livrando das nossas próprias amarras, que conquistamos esse estado de liberdade. Mesmo que demore a eternidade, a roda da vida está aí para prover o dinamismo cíclico.

Depois que a gente se aproxima um pouco mais da compreensão sobre o que é a liberdade da alma e desconstrói o ordinário, não dá pra voltar ao comum como antes. Como disse o filosofo: o rio não é o mesmo depois do primeiro banho.

nuvem_azulMas, se não nos livrarmos do apego, se não aceitarmos a impermanência das coisas, se não reconhecermos o todo dentro de nós, poderemos cair num grande engodo. É necessário aprender a viver separadamente e coletivamente. Ao estar consigo mesmo, verdadeiramente, podemos vibrar na sintonia do outro.

A exemplo das cordas do violino que, embora separadas, compõem a mesma melodia, na vida a dois e na vida em sociedade, também devemos preservar o equilíbrio entre nossa porção individual e nossa porção social. Manter o todo e a parte, o eu e o outro, dançando harmoniosamente pode ser uma tarefa complexa, mas é extremamente necessária para o nosso crescimento.

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Uma resposta para Sobre essa coisa de ser livre

  1. Poliana Risso disse:

    Acredita que tive um chacoalhão agora, lendo seu texto?….não faz nem 4 meses que estou casada, que ouvi essa história das aves e do amor, e já estava me perdendo, desejando os ideais de casamento, de vida profissional, de felicidade.
    Concordo que quem “se aproxima um pouco mais da compreensão sobre o que é a liberdade da alma e desconstrói o ordinário, não dá pra voltar ao comum como antes”. Acredito que passei por isso uma vez e hoje tenho uma visão diferente sobre a vida. Entretanto, não sei porque, essa visão as vezes some, e o ego predomina, sem que eu perceba…até que ouço alguma mensagem, vejo alguma imagem reveladora ou leio algo assim, como seu texto por exemplo, e aí volto a refletir sobre como estou indo nesta caminhada da vida….Poxa vida, mas como somos testados o tempo todo não? Como o ego rodeia e rodeia a gente!
    Aceitar-se como é e viver bem com isso, já dá um bocado de trabalho, agora, aceitar-se, viver bem com isso e ainda, aceitar o outro e viver bem com o que o outro é, é missão dobrada hein? Não tô reclamando não..juro….mas espero muito que eu consiga cumprir essa missão que escolhi pra mim…rs
    Saudade de vc viu….to adorando seus textos…faz refletir e aumenta minha vontade de conhecer o Peru!rsrs…espero que esteja bem por aí (acredito que esteja)…sorte daqueles que vão trabalhar com vc e receber seu carinho!…bjo grande!
    Poli.

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