Escrever o que, para quê, para quem

Recebi um email instigante de uma grande amiga que falava, também, sobre a expressão através da palavra. Então, claro, fiquei refletindo a respeito da comunicação particular num meio público e me lembrei de uma antiga tentativa de responder a essa questão: escrever o que? pra quê? pra quem?

Nem sei se “isso” pode ser chamado de poema ou coisa que o valha. Só sei que “isso” foi um chamado para mim mesma, uma forma de sobreviver e/ou de me fazer existir:

escrever sempre

pra sempre

pra si

pra ti

patati, patati

escrever

quando o mundo

nos dita

a história da vida

quando o fundo

que grita

a estória

levanta a poeira

sobre o papel

 escrever

quando o coração

se enche de mel

mela as palavras

ou quando o peito

se enche de cólera

e a água que escorre

borra a tinta no papel

escrever

pro sempre ser sempre

e nunca acabar

escrever pra acordar

discordar

chorar

escrever pra amar

pra encontrar

 Sempre que revisito alguns textos, percebo o quão distante eles ficaram na história ou o quão presentes ainda estão e urgem de ressignificação. Percebo o tom pueril, característico de quando foram escritos; percebo a confusão, o drama, a revolta, a indignação, a ilusão, a desilusão…. a palavra escrita realmente é uma dádiva para perpetuar até mesmo os sentimentos!!

De acordo com a minha amiga, “Sócrates dizia que a palavra escrita é perigosa na medida em que contém a possibilidade de fechar em si o desenvolvimento do questionamento, por outro lado a palavra falada é livre de dogmatismo.”

Na minha mais honesta arrogância, discordo de Sócrates!! Acho impossível a ideia se fechar em si mesma. A dialética está sempre presente; faz parte natural! A gente se coloca e, logo mais, alguém nos tira daquele lugar, com outras ideias. A gente se coloca e, logo mais, já não se reconhece naquele emaranhado de letras. E isso toma um volume inteiro com muitos capítulos, várias edições, revisões… assim a palavra segue adiante, num redemoinho frenético.

Na minha mais honesta expectativa,  continuo achando que todos nós devemos publicar nossos pensamentos. Pensar em voz alta para, no mínimo, se ouvir. Minha amiga acha que ela tem uma “dívida literária”, por ter preservado pelo menos parte da sua sanidade mental com os livros. Pois, todos nós temos lá os nossos títulos de dívida externa!! E daí?!

Incluiria ainda os filmes e as músicas, que já nos salvaram de alguma tristeza, de alguma “maluquez”, de alguma sensatez extrema ou de alguma lucidez desnecessária; que já abriram algumas janelas e nos fizeram navegar nos pensamentos alheios, até encontrarmos nossas próprias ideias. Por isso, acho que todos nós temos mesmo que pagar essa dívida com juros, sem nos preocuparmos com as correções!!!.

Talvez, fazer da nossa sanidade mental, ou da sua completa falta, “aquilo” que nos move a escrever, já é um bom começo. Um presente para compartilhar com o mundo, sem precisarmos saber, antecipadamente ou posteriormente, com quem ou quando. Apenas registrar…

Simplesmente lançar ao cosmo a palavra. E aquelas outras tantas almas que vagueiam por aí, que se sentirem atraídas por ela, se encarregarão, por si mesmas, de acessar e de construir ou desconstruir as ideias. Elas podem se identificar com algumas, refutar outras, desenvolver outros pontos de vista, reduzir, copiar e colar, repetir.

Como dizem por aí, “o universo funciona como um espelho e tudo aquilo que transmitimos, retorna para nós amplificado”. Acho isso sensacional e não vejo problema algum anunciar nossas referências. Podemos transferir ideias e até mesmo colidir com o verbo.

Que importa?! No princípio era o verbo e olha só no que nos tornamos…

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Uma resposta para Escrever o que, para quê, para quem

  1. Andrea disse:

    Talvez saiba talvez não saiba o que você quis dizer com provocação…em todo caso gostaria de dizer e escrever algo: Uma das coisas que gostei na nossa convivência foi ter podido presenciar sua persistente luta pelo conhecimento, via de acesso ao equilíbrio. Sua bravura e esperança me enchem o coração de paz, pois me faz re-cordar de algo que um dia possui. Admiro muito o que esta fazendo no blog. Gosto das coisas que escreve, gosto da suas estórias e das reflexões, gosto de acompanhar suas explorações, e acima de tudo sinto admiração por alguém que apesar de sempre estar completamente no controle das situações não permitiu que este lado severo abafasse a preciosa “esperança” no ser. Você, por definição é uma vencedora, em muitos aspectos, ja te disse isso e repito. A esperança no Bem tive que entregar, ha muito tempo atras, em pagamento a um desejo feito nos entardeceres no plato. Preço alto de mais? Penso, que não vale a pena chorar sob o leite derramado, contudo aprendi a lição de ter muito cuidado no que desejo…..a harmonia com o cosmo…..tenho certeza que não tenho cacife pra isso. Mas você tem, pois nesta área é mais destemida que eu, persegue a harmonia eterna, custe quantas Vidas custar. Enquanto pulo despretensiosamente nos rios, você mergulha, talvez não sem medo, sinal de coragem, destemidamente nas profundezas do universo. Para você a vida, base para o aprendizado, é assunto serio e real, pra mim uma quimera porque o que vejo é triste de mais para ter um sentido, e o que sinto belo de mais para ser apreendido. Desejo que nunca perca essa determinação de alcançar a comunhão com o cosmo, porque a sua visão do mundo liberta as pessoas e a todos nós do sofrimento; a minha nos condena a dor eterna, a uma ferida que jamais se fechará. Por isso, fico feliz de existirem pessoas como você, que talvez possam nos salvar de nossas traições, e que se juntam numa grande corrente para o Bem do Todo, levando, nós incrédulos, de lambuja nessa grande onda de amor e esperança.

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