Silêncio necessário

Recebi de uma amiga um email com um texto maravilhoso sobre “a escuta”. O autor defende a importância de prestarmos atenção à fala do outro, escutando-o com o coração aberto e a mente concentrada no conteúdo.

Concordo plenamente com esse texto e mais, ele acolhe meu desatino dos últimos tempos. Tenho vivido umas experiências inquietantes nesse sentido. Em roda de conversa, fico observando (porque, às vezes, é apenas isso que me cabe naquele momento) as interações entre as pessoas e chego a pensar que elas tentam existir, desesperadamente, através da sua própria fala.

“Um Alguém” anuncia uma história e, sem nenhum pudor, “Um outro” o interrompe no meio da frase, quase que sequestrando todas as palavras, sem direito a resgate, e passa a dominar a cena. “Um outro” transforma o que antes era uma tentativa de diálogo, num verdadeiro monólogo. Coloca todo o seu conhecimento e experiência sobre o assunto na vitrine e pouco se importa se há ressonância no comunicado.

Muitas vezes, “Um alguém” começa a compartilhar um fato ou uma curiosidade e, sem nenhuma censura, “Um outro” se antecipa na narrativa, assumindo o suposto lugar do saber tudo sobre aquele fato ou curiosidade e passa a discorrer sua experiência própria.

“Um Alguém”, às vezes, tenta retomar o raciocínio, mas “Um Outro” está sempre pronto a destituí-lo do script. A comunicação, que nessas alturas nem pode mais ser chamada assim, se considerarmos o verdadeiro sentido do conceito, torna-se um campo de batalha dos egos, que lutam pela sobrevivência.

Mais e mais, as pessoas parecem ter necessidade de falar de si mesmas e de mostrarem o quanto sabem. Deixam até a impressão de não se importarem se não forem escutadas, contanto que sejam ouvidas e que todas as atenções estejam direcionadas ao seu rei-ego.

Isso me faz pensar na total falta de empatia. Na provável incapacidade de se colocarem no lugar de “Um Alguém” para compreender seu pensamento, ao invés de interpretar suas palavras. É como se estivessem protagonizando um julgamento e condenando o verbo.

“Um Outro” não se digna a esperar “Um Alguém” concluir seu pensamento porque, afinal de contas, o relógio está clicando e, os preciosos minutos, ficando para trás. “Um Outro” não pergunta como “Um Alguém” está, pois isso talvez demande o esforço que irá lhe tirar do trono.

Alberto Caeiro disse (ou escreveu para que “Um Outro” escutasse): “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.”

A via de mão dupla que tantos autores reconhecem na comunicação está congestionadíssima. É um Deus-nos-acuda e, nem adianta buzinar. Melhor mesmo é fazer um blog só seu!!

Então, coloco-me em semi lótus diante do computador, alcanço o silêncio e me escuto…

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