Plagiando a literatura

Logística resolvida, corpo recomposto, ânimo restabelecido. Agora volto os olhos para a beleza externa e abro a boca, não apenas para contemplar tudo que vejo, mas também, para saborear um bom vinho. As vinícolas são maravilhosas e a arte de engarrafar o néctar de Baco pode ser tão sofisticada, como é o caso da tecnologia das grandes vinícolas, quanto artesanal, no caso dos pequenos produtores orgânicos. Qualquer que seja o método e a tradição, o conteúdo da garrafa é o que conta!

E a vida não é exatamente assim?!

Observando a multidão de pessoas, passando pela calçada, entre um gole e outro de cabernet sauvignon, ria muito comigo mesma. Que ironia! Nunca pensei que fosse concluir um retiro espiritual tomando vinho e comendo pão com azeite de oliva extra virgem, em plena “rambla” argentina. Isto me fez lembrar do livro da Elizabeth Gilbert, que ganhei há 2 meses e ainda não li (mas pretendo fazê-lo em breve!). Baseada apenas no título, “comer, rezar e amar”, parece que fiz o itinerário ao inverso.

Sobre amar, comento apenas que a experiência de compartilhar a vida com uma pessoa pode ser extraordinariamente rica e cheia de desafios. Interagir com o outro também é como girar o caleidoscópio: a cada movimento, novas configurações que nos proporcionam momentos de felicidade e sofrimento. Não há relação, qualquer que seja, que não tenha que navegar por este mar de impermanências. As ondas vão e voltam e o nosso barco vai flutuando, conforme o ritmo imposto pelas águas. Talvez o segredo seja apenas estar, cada vez mais, preparados para posicionarmos as velas a favor do vento. E, em alto mar, nada de pânico durante a tempestade. Nada melhor do que uma boa noite de sono para assentar as ideias e tomar as decisões à luz da consciência que desperta com o raiar do dia.

plagiando_literaturaSer o capitão do seu próprio barco faz parte da formula conjugal. É preciso manter a sintonia com o outro sem perder-se de si mesmo. Quando a nossa integridade está ameaçada, então é hora de repensar a rota do barco.

Amar é maravilhoso e quando conseguimos equilibrar todos os momentos da rotina conjugal, é melhor ainda. Descobrir o outro e descobrir-se para o outro, pode ser ao mesmo tempo intenso e sublime. Amar vale todos os minutos de um dia, todos os dias de uma vida. Amar vale todas as noites mal dormidas, todas as noites não dormidas, toda gota de lágrima que escorre dos olhos, toda gota de suor que molha o corpo.

Não posso reclamar das minhas experiências amorosas. A vida me contemplou com belíssimas oportunidades! Mesmo naquelas em que o caleidoscópio parecia emperrar na hora do sofrimento, o tempo se encarregou de fazer girar o coração cuidadosamente. Minhas cicatrizes amorosas não se rompem com as lembranças. É muito bom poder guardar o que foi de melhor, coexistindo com o que foi de pior; é uma síntese verdadeira.

Depois das coisas do coração (se é que posso dizer “depois”, pois entendo que elas nunca ficarão para trás se mantivermos o “olhar nos lírios dos campos”) vieram as da alma. Rezei, meditei, entreguei-me ao deserto árido de mim mesma, buscando entender melhor o meu dharma e reconhecer meu karma. Certamente, este retiro não foi o único a me proporcionar este mergulho. Há vários anos venho “nadando” neste sentido. Desde o envolvimento com a doutrina espírita, a viagem para a Índia, a prática da meditação, os anos bem aproveitados no divã, os cafés filosóficos com os amigos… Foram muitos mergulhos!

Mas, de certa forma, as descobertas nas últimas semanas intensificaram o senso de orientação e fortaleceram o prumo. Se estou pronta espiritualmente?? Claro que não! Nunca estamos concluídos com o nosso desenvolvimento. Apenas sinto-me pronta para começar a trilhar o caminho final. Aquele que a gente encontra, finalmente, depois que resolve sair da garupa do ego.

Para onde este caminho vai me levar?? Eu sei: para o Divino. Por onde vou? Vou aprendendo a descobrir um passo após o outro. Como dizia Sogyal, nem aos menos sabemos se estaremos encarnados aqui amanhã. Não há um locus específico, pois nossa alma só percorre os mundos pelos quais se sente atraída. Basta a consciência, pois onde estivermos, estaremos no lugar que escolhemos.

Qual o tempo para isto?? A eternidade da alma, sem pressa. Tudo é fruto das nossas escolhas e posturas. Só temos que agir com coerência e responsabilidade, já que colhemos o que, à medida em que plantamos. Lembrei-me nitidamente do meu velho amigo me orientando sobre o caminho mais próximo do Divino: agir com amor e caridade. Apenas a prática com consciência, nada mais!

E, então, por último “comer”. No meu caso, estar em samsara, desfrutando os prazeres do vinho, boa comida e comodidade. Mas, tudo isto não me encanta. Serve, sim, para relaxar o corpo, distrair a mente e preparar o espírito para a jornada de volta do herói.

De guerreira não tenho nada, além da capacidade de sobreviver às surras. Velhas conhecidas, íntimas inimigas que me ensinaram a ficar em pé e a valorizar todas as situações difíceis. Sem elas não estaria aqui. Com elas é que eu cresci e agora me liberto.

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