Para onde ir senão dentro de si mesmo?

Nunca lavar a louça do café da manhã tinha sido tão dolorido como nesta manhã. A água do riacho está congelante! A temperatura caiu bastante durante a noite e é possível ver novos focos de neve no topo da montanha maior. O vento também está bem mais gelado. O corpo fica mais contraído e tomado por uma enorme preguiça de se movimentar.

Vez ou outra chega aos ouvidos um barulho forte, vindo de longe. Mais parece um caminhão se aproximando. O tempo é quase certo: uns trinta segundos depois do barulho, chega uma intensa rajada de vento, capaz de virar o guarda-sol do avesso.

Todo este desconforto físico e precariedade das instalações testam a capacidade de concentração na busca interior. Às vezes dá vontade de dizer “chega! Pra que tudo isto?!” Imediatamente após vem outro pensamento: “que importa?! Poderia ser na Praça da Sé em São Paulo, no calor infernal da Amazônia, no confortável sofá da minha casa… e por que não aqui?!”

Nenhum telefone toca, só se ouve o barulho do vento e dos pássaros, que são poucos. O isolamento é quase total e não tem para onde ir senão para dentro de mim mesma. Esta é uma viagem que permite passar a limpo todos os eventos que moram na memória. Ótima oportunidade para fortalecer a capacidade de perdoar e renovar a paz de espírito.

Das reflexões, surgiu uma vontade imensa de descrever cada evento e dar a ele uma nova configuração. Talvez eu devesse colocar esta tarefa como meta, mas sem a pretensão de que seja um “livro de memórias”. Apenas peregrinações por entre os momentos de sofrimento e dor causados por mim aos outros e em mim, em função da minha dificuldade de compreender os atos dos outros.

Até agora, foram dois dias tomados para revisitar a “caixinha de pandora”. Sinto que está na hora de olhar para frente.

Antes de vir criei a expectativa de definir meus próximos passos ao longo da viagem. Queria traçar planos para os próximos períodos da vida. A experiência da Índia, há alguns anos, tinha sido muito positiva neste sentido, pois havia conseguido estabelecer algumas metas para os cinco anos seguintes.

Com o andar da carruagem, os cinco anos viraram quatro e cá estou eu novamente, aberta para balanço geral e reposicionamento das velas. Por isso, esperava como resultado deste retiro que pudesse encontrar um plano de voo pronto dentro do meu coração, que me lançasse no fluxo da vida por mais alguns anos… quem sabe três anos.

Pensei em tantas coisas, tantos projetos. Porém, com as ilusões do ego apaziguadas neste momento, tudo fica menos importante. Não há planos. Não há projetos. Todos os trabalhos com os quais colaborei até hoje continuarão sendo realizados por pessoas maravilhosas, competentes, dedicadas e amorosas com as respectivas causas. E daqui, para onde devo seguir? O que devo ainda cumprir?

Para permanecer no caminho do karma yoga (a busca do sagrado pelo trabalho), é necessário me envolver com algum projeto e dispor minhas ferramentas para o trabalho. Mas o que exatamente?

Talvez devesse apenas aquietar a minha mente e, atentamente, aguardar que o Divino envie seus sinais. Ao mesmo tempo, fico lembrando aquela historinha do pedinte que rezava fervorosamente para ganhar na loteria, até que o santo responde recomendando que ele pelo menos comprasse um bilhete. Temo não estar fazendo a minha parte. Mas qual seria ela??

Entendo que o retiro é parte do processo, mas sinto falta de algo concreto e objetivo. Racionalmente já conclui que não dá para continuar no mesmo tipo de trabalho que realizava. Meu coração pede simplicidade, humildade e compaixão. Gostaria muito de encontrar uma atividade onde pudesse usar apenas isto como “ferramenta”.

Mal termino de escrever e já ouço meu anjo alertando que em qualquer trabalho, esses são os principais ingredientes!

Por certo que, na prática, estes elementos permeiam ou deveriam permear todas as nossas atividades, em qualquer planeta e dimensão. Portanto, não sei definir a “pergunta certa”. Ouço apenas minha alma pedindo para ser coerente: mente, corpo e ação direcionados sob a mesma luz e intenção.

Porém, há uma sombra de dúvida. É possível olhar para frente quando alguns fantasmas do passado ainda assombram o coração? Como burilar totalmente as coisas para que possamos avançar? Talvez avançar seja, exatamente, burilar o karma!

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