Maria e a mulher-da-janela-de-baixo

Por que a pressa se temos a eternidade e sabemos qual é o nosso ponto de chegada? Querer ir além pode ser um ótimo combustível. O carro já esta compatível com a viagem. Nesta altura do campeonato, até acho que o motor está aquecido suficientemente. Agora é só engatar a primeira e seguir estrada afora. O caminho pode ser qualquer um. O momento é o agora. O mais importante é realizar o dharma. Os atalhos e as paradas necessárias para reabastecer o carro ficam por conta do karma.

Então vamos lá!

Ontem estava no topo de uma colina meditando e pedi para que, por meio dos sonhos, minha busca fosse atendida. E, não podia passar da noite de ontem para hoje, pois já estava quase no dia de sair deste local. Não que eu quisesse “forçar a amizade” com o Divino, mas já me sentia pronta para mais uma revelação.

À noite, eu fiz um pequeno jejum para preparar melhor o corpo e facilitar o desligamento com a matéria mais densa. Deitei-me com as estrelas e orei do fundo do coração para que o meu anjo viesse me buscar. “Acordei” de madrugada com o seu chamado.

Pacientemente ele me mostrou duas cenas. Na primeira, uma mulher morena, com vestimentas muito simples, lenço amarrado no cabelo, olhar compassivo. Parecia calejada pelo serviço doméstico e do campo. Na hora entendi que era a tão desejada “Maria benzedeira”. Aquela personagem da minha mente, que provoca em mim o desejo de um dia ser “simplesmente Maria”.

maria-mulherCompreendi que, de fato, esta mulher já existiu; ajudou muitas pessoas, fazendo o bem. Contudo, em determinado momento, ela sentiu suas limitações e desejou mais. Então pediu para desenvolver algumas habilidades intelectuais, acreditando que isto reforçaria sua capacidade de ajudar os outros.

maria-mulherA segunda cena foi mais dramática. Da janela de um prédio não muito alto, um homem ameaçava se jogar. De forma muito irada, ele demonstrava seu descontentamento com a vida. Alguns andares abaixo, numa outra janela, uma mulher tentava conversar com ele, buscando dissuadi-lo do suicídio. Do lado de fora do prédio dois espectadores impotentes assistiam a tudo e torciam para que ele a ouvisse. Os bombeiros já haviam sido chamados, porém todos temiam que eles não chegassem a tempo. O homem esbravejou uma última vez e se jogou. A mulher projetou seu corpo para fora da janela, tentando agarrá-lo, quando estivesse caindo, mas com a velocidade e peso do corpo dele, ambos despencaram.

Voltei imediatamente ao corpo, em estado de alerta. Permaneci inquieta por várias horas. Somente aos poucos o sentido destas duas cenas foi sendo moldado pelo meu anjo.

No fundo, ele apenas me mostrava que as habilidades de Maria não teriam impedido o homem de se jogar pela janela. Era necessário, além da compaixão, certa eloquência e poder de persuasão de uma mente mais intelectualizada.

Por outro lado, a segunda mulher que tentava usar as palavras certas, havia falhado, colocando fim em sua própria vida. Ela guardava dentro de si pouca confiança em seu conhecimento e na sua força. É como se ela tivesse perdido a Fé, em si mesma e na vida, por não ter sido capaz de evitar a morte daquele homem.

Compreendi, em síntese, que é necessário guardar a compaixão de Maria no coração para que a mente seja inspirada a usar o conhecimento da “mulher-da-janela-de-baixo”, a fim de tocar a alma das pessoas. Ainda assim, cada alma faz as suas escolhas e não podemos nos culpar pelos seus atos e destinos. No fundo da alma, cada um sabe do seu caminho, mesmo que não consiga assumir o seu sentido.

As falhas não podem nos fazer desacreditar no potencial do dharma. Elas apenas indicam, por meio das situações karmáticas, o que devemos aprimorar. Cabe então, compreender nossas tendências (positivas e negativas) para aliarmos forças. Uma vez fortalecidos, podemos seguir em direção à superação de tudo (positivo e negativo!!).

O anjo permaneceu ao meu lado, enquanto tudo isto foi sendo desvendado. Sentia sua vibração a cada lágrima que escorria. O choro era um misto de felicidade, contentamento, agradecimento e outras emoções que não consegui decifrar. Estava, finalmente, muito mais perto de entender o meu dharma e reconhecer os atalhos karmicos que me levaram até o presente momento.

O caminho trilhado pareceu muito mais lógico e cada situação vivida muito mais conectada uma a outra. As escolhas, obviamente, mostraram-se sintonizadas com tudo isto. Comecei a pensar que, ao contrário do que sentia (desconectada do dharma), sem mesmo saber, já havia me encontrado no exato caminho.

As duas cenas me mostraram que não preciso buscar nada mais de diferente nessa vida, pois tudo o que é necessário se resume em aperfeiçoar aquilo que já é. Aceitar a complexidade do pensamento, aproveitar as oportunidades para simplificar os questionamentos e traduzir a essência da vida com compaixão.

Mas, de novo, como fazer isto? De novo: saberei usar o livre arbítrio para escolher os próximos projetos em consonância com tudo isto? No fundo, no fundo, o que importa não é exatamente que projeto será desenvolvido e sim como realizar as tarefas.

Todas as leituras budistas e espíritas que já fiz, sempre enfatizaram a necessidade de realizarmos as coisas totalmente concentrados na tarefa. É assim que nos dedicamos ao Divino. Sendo integralmente aquilo que pensamos, sentimos e agimos. Sogyal define o grande praticante espiritual como “alguém que vive sempre na presença do seu próprio eu verdadeiro, alguém que encontrou e usa sempre as fontes da inspiração profunda”.

Portanto, basta encontrarmos as nossas verdades interiores e sermos fieis a elas. Entretanto, isto não significa que elas sejam absolutas e permanentes. Aliás, nada reina para sempre! Como um caleidoscópio, as verdades também vão se configurando de diferentes formas, de acordo com as nossas vivencias e amadurecimento.

Então, é possível assumir novas lições na jornada terrena? Sim! Parece que podemos “resolver” mais de um karma, mesmo sem termos planejado isto antes do reencarne. Não me parece, entretanto, ser o meu caso.

Faço uma retrospectiva sobre a minha passagem por aqui e consigo destacar quatro pontos fundamentais a serem trabalhados: 1) o equilíbrio entre o amor carnal e a troca singela de vibrações; 2) a auto confiança e a Fé no potencial Divino dentro de mim; 3) o perdão pelos atos alheios e pelas minhas próprias fraquezas; 4) simplificar e tornar a alma mais humilde e terna.

Bem, as questões não estão colocadas em ordem de importância e nem dentro de uma cronologia. É isto! As situações foram permitindo trabalhá-las em conjunto e simultaneamente.

Enfim, o dia vai amanhecendo e um sentimento muito forte se afirma dentro de mim. É a certeza de que, revisitar os eventos da vida, faz com que possamos limpar a poeira sobre eles, o que nos permite desmistificar alguns fantasmas que ficam colados no calcanhar. Revigora o movimento de seguir em frente.

Como defendem algumas pessoas, não podemos mudar o passado, mas aprender com ele a modificar o futuro. Por isto, lanço o olhar para o sol que desponta e agradeço ao meu anjo pela revelação: agora é o momento de fazer a síntese de Maria e da mulher-da-janela-de-baixo, para atravessar uma nova etapa da iluminação.

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